Economia SP - Sua marca não é o que você publica, é o que consegue provar

Pesquisar

Sua marca não é o que você publica, é o que consegue provar

Compartilhe

Eu tenho uma teoria, e prometo que ela não é de palestra motivacional: falar a verdade vai virar diferencial competitivo.

Não porque o mercado acordou ético numa segunda-feira (seria lindo, mas não). Quem vai cobrar a verdade das marcas não é o consumidor, nem o Procon, nem a sua consciência. É a inteligência artificial.

Durante vinte anos, a gente disputou atenção. Aprendeu a parar o dedo no feed, a implorar pelo clique, a criar urgência até pra vender pão de queijo. Só que apareceu uma camada nova entre a marca e o consumidor, com um defeito gravíssimo pra quem vive de marketing: ela não tem atenção pra ser disputada. Ela lê, compara e resume.

O clique virou opcional (e ninguém avisou o seu site)

Hoje a pessoa chega até uma marca por três caminhos. O primeiro é o clássico: ela vai direto até você, e é onde a gente já sabe jogar. O segundo virou rotina: ela pergunta pra IA. “Me conta, Claudinho, qual é a melhor, vale a pena, compensa mesmo?” E o Claudinho responde antes de qualquer site aparecer. O terceiro está chegando: o agente de IA do consumidor negociando direto com o sistema da marca, sem nenhum humano no meio pra se encantar com o seu banner.

O segundo caminho já mexe nos números. O Pew Research Center analisou cerca de 69 mil buscas reais no Google, feitas por 900 adultos nos Estados Unidos. Sem resumo de IA no topo, 15% terminavam em clique. Com o resumo, 8%. Clique num link de dentro do resumo? 1%. Aquele site que levou três reuniões só pra decidir a cor do botão está virando um lugar aonde cada vez menos gente chega.

Se a sua marca não está dentro da resposta, ela não está na jornada. E quem chega pela IA chega pronto: no D2C Summit, no início de outubro, o Neil Patel mostrou que um lead que vem da IA vale sete que vêm do site, porque a IA já fez a descoberta, já tirou a dúvida e já comparou. Quem não aparece na resposta não perdeu a venda. Nem chegou a existir.

A IA não cai no preço riscado

Faz um teste rápido comigo. Você reconhece algum destes?

O preço riscado “de R$ 997 por R$ 497”.

A contagem regressiva que zera à meia-noite e volta às 8h da manhã, firme e forte.

O “últimas vagas” que está ali desde o Carnaval.

(Sem julgamentos. Eu também já usei.)

Com gente, às vezes até funciona, né? Com a IA, quase nada. Em maio, a Harvard Business Review publicou uma pesquisa de Jafar Sabbah e Oguz Acar que testou oito desses selos de venda em quatro modelos de IA, em mais de 16 mil situações de escolha. Escassez, contador regressivo, preço riscado, cupom, combo e garantia de reembolso: nenhum teve efeito estável. O único sinal consistente nos quatro modelos foi a avaliação por estrelas. E os modelos que pensam antes de responder chegaram a penalizar a persuasão explícita. Traduzindo: em alguns casos, gritar “ÚLTIMA CHANCE” atrapalhou.

A IA não se emociona com cronômetro. Ela procura prova.

Share of Context, ou: o que a IA sabe sobre você

É aqui que entra um conceito que eu venho chamando de Share of Context. Por décadas, o mercado mediu share of voice: o quanto a marca fala, comparado aos concorrentes. Share of Context mede em quantos contextos relevantes da categoria a marca aparece, é entendida do jeito certo e é associada, com prova, aos problemas que resolve.

Contexto é feito de três blocos. Os fatos são o que dá pra conferir: preço, prazo, público, limites. “Somos ágeis” não é fato, é horóscopo. Algo como “entregamos em 48 horas em 92% dos pedidos” é fato. As associações dizem a que problemas, momentos e públicos a marca está ligada, e as erradas contam tanto quanto as certas. As evidências são quem confirma por você: avaliação, imprensa, dado público, terceiros. Sem evidência, o resto é alegação. Bonita, bem diagramada, mas alegação.

E a IA não gosta de espaço vazio. Quando a sua marca não oferece contexto, ela preenche o buraco com o que encontrar. Spoiler: muitas vezes, é o seu concorrente.

Então é só aprender a enganar a IA?

Boa sorte, amigos. Dá muito mais trabalho enganar a IA do que contar a verdade. Ela lê o que você diz de você e o que os outros dizem de você: a avaliação, a reclamação, a matéria, aquele fórum que você jura que ninguém lê. Review fabricado e associação sem lastro até ganham espaço por um tempo, e se desfazem na primeira vez que a experiência real do cliente contradiz.

E a conta deixou de ser só de reputação. Em 2024, a Air Canada perdeu um processo no Canadá porque o chatbot do próprio site informou errado uma regra de tarifa. A defesa foi um clássico: o chatbot seria “uma entidade separada”. Tipo aquele estagiário que ninguém lembra de ter contratado. O tribunal não comprou: o que o robô fala em nome da marca é responsabilidade da marca. A indenização foi pequena. O precedente, não. Contexto errado saiu da mesa do marketing e foi parar na do jurídico, onde as coisas andam bem mais rápido.

O Brasil vai sentir isso primeiro

O agente que compra pelo consumidor não é roteiro de ficção científica. Um estudo da Visa com 4 mil consumidores no Brasil, nos Estados Unidos, no Reino Unido e em Singapura mostrou que 76% dos brasileiros pretendem usar agentes de IA pra comprar, contra 44% dos americanos. Aqui, 67% confiam em deixar um agente comprar em seu nome, e 54% já compraram algo indicado por IA. Em março, Banco do Brasil e Visa fizeram a primeira transação feita por um agente no país. O país que transformou o Pix em verbo não vai ficar esperando ninguém.

E o agente não vê o banner, não sente a urgência e não se apaixona pela embalagem. Ele precisa ler catálogo, preço, prazo e política de troca. Se isso não está claro, a IA pode até gostar da sua marca e mesmo assim não conseguir fechar a compra.

Os gatilhos não morreram

Antes que alguém poste “o gatilho mental morreu”: não morreu. Parem de matar as coisas. A gente ainda escreve pra gente e ainda precisa encantar o humano. Só que agora são duas tarefas ao mesmo tempo: encantar o humano e provar pra IA.

Pela primeira vez, a coerência entre o que a marca promete e o que entrega deixou de ser só aquela virtude que a gente elogia em palestra. Virou vantagem que dá pra medir. A sua marca não é o que você publica. É o que o ecossistema consegue provar sobre ela.

Compartilhe

Fundadora da Okeydoke, SaaS de gestão da estratégia e conteúdo para profissionais de social media.

Leia também