Economia SP - O maior erro de um líder é achar que precisa ter todas as respostas

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O maior erro de um líder é achar que precisa ter todas as respostas

Por Lucas Rezende, cofundador e CEO da Guiando.

 Existe uma expectativa silenciosa sobre quem assume uma posição de liderança: a de que precisa saber o que fazer, tomar as decisões certas e transmitir segurança, mesmo quando não tem todas as respostas. O problema é que essa imagem do líder infalível, ainda valorizada em muitas empresas, pode se tornar um dos principais obstáculos para o desenvolvimento das equipes e dos negócios. 

Durante muito tempo, associamos liderança à capacidade de controlar resultados, pessoas e processos. Quanto mais respostas um gestor tinha, mais preparado parecia estar. Mas o ambiente empresarial é muito mais complexo do que qualquer planejamento consegue prever. Clientes mudam de comportamento, estratégias deixam de funcionar e decisões precisam ser tomadas sem que todas as informações estejam disponíveis. 

É justamente nesses momentos que a liderança se revela. Não necessariamente pela capacidade de encontrar uma solução imediata, mas pela disposição de reconhecer os problemas, ouvir perspectivas diferentes e construir caminhos possíveis. 

Um dos equívocos mais comuns nas organizações é confundir autoridade com a obrigação de estar sempre certo. Quando o líder acredita que precisa demonstrar domínio absoluto sobre todas as situações, admitir um erro passa a ser interpretado como fraqueza. O resultado é um ambiente no qual as pessoas evitam questionamentos, escondem dificuldades e preferem concordar a apresentar opiniões contrárias. 

Outro desafio está na cultura organizacional. É comum encontrar empresas que cresceram apoiadas no talento individual, na proximidade com os clientes e na capacidade de improvisar. Essas características podem ser fundamentais nos primeiros anos, mas aquilo que ajudou uma organização a crescer nem sempre será suficiente para sustentar sua próxima etapa. 

O crescimento exige processos, indicadores, clareza sobre responsabilidades e disposição para rever práticas que deixaram de funcionar. Entretanto, transformar uma cultura significa questionar comportamentos que, durante anos, foram reconhecidos e recompensados. E nem toda resistência representa falta de comprometimento. Muitas vezes, ela nasce da insegurança diante do desconhecido ou simplesmente do hábito de fazer as coisas da mesma maneira. 

Também existe uma dimensão pouco discutida da liderança: a dificuldade de reconhecer os próprios limites. Gestores continuam sendo pessoas sujeitas ao cansaço, à insegurança e às pressões da vida fora do escritório. Ainda assim, muitos acreditam que precisam esconder essas condições para preservar sua autoridade. 

Quando liderar se transforma em uma tentativa permanente de demonstrar força, pedir ajuda e delegar responsabilidades tornam-se atitudes cada vez mais difíceis. O gestor centraliza decisões, sobrecarrega a própria rotina e enfraquece a autonomia da equipe que deveria desenvolver. 

Delegar, porém, não significa apenas distribuir tarefas. É criar condições para que outras pessoas possam decidir, assumir responsabilidades e aprender. Da mesma forma, reconhecer um erro não significa abrir mão da autoridade, mas demonstrar que o compromisso com os resultados é mais importante do que a necessidade de preservar a própria imagem. 

Isso não quer dizer que uma liderança imperfeita deva ser complacente com falhas ou decisões mal executadas. Pelo contrário. Reconhecer limitações exige ainda mais responsabilidade sobre processos, indicadores e resultados. A diferença é compreender que consistência não significa acertar sempre, mas ter maturidade para identificar desvios e corrigi-los. 

Ao longo da minha trajetória como empreendedor, aprendi que muitas decisões importantes não surgiram de momentos de absoluta certeza, mas de conversas difíceis, análises de resultados e da percepção de que algumas convicções precisavam ser revistas. Essa reflexão também inspirou meu livro Liderança Imperfeita, no qual exploro, por meio da ficção, os desafios de gestão, os conflitos organizacionais e os dilemas pessoais de quem lidera. 

Talvez seja necessário abandonar a ideia de que bons líderes são aqueles que nunca demonstram dúvidas. Em um cenário de transformações constantes, a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer que ninguém constrói resultados sozinho pode ser mais valiosa do que qualquer aparência de perfeição. 

No fim, liderar não é ter todas as respostas. É assumir a responsabilidade de fazer as perguntas certas, tomar decisões diante das incertezas e construir equipes capazes de avançar sem depender de uma única pessoa. 

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