O desperdício e o triste destino das boas ideias

Nada é tão ruim para uma boa ideia quanto uma má execução. Tenho dito isso todas as vezes que vejo excelentes oportunidades sendo desperdiçadas, principalmente na esfera pública, governos federal, estaduais, municipais ou arranjos regionais.

Quando a má implementação acontece, geralmente, aquela ideia que tinha um princípio ativo muito forte e positivo acaba sendo condenada ao ostracismo, eventualmente por décadas. Passam à frente na fila de projetos, então, iniciativas que não têm necessariamente a mesma qualidade.

Aliado a isso, há a descontinuidade de programas, mesmo que tenham apresentado bons resultados, simplesmente por terem sido lançados por outro grupo político, outra gestão ou partido. Como se o cidadão escolhesse ser atendido por uma política de centro, de esquerda ou de direita.

No extremo oposto há as iniciativas que passam anos gestando mais problemas, para o futuro, que soluções. Este é o foco de um livro lançado há algumas semanas “Para não esquecer: Políticas Públicas que Empobrecem o Brasil”, composto por 33 artigos e organizado pelo economista Paulo Mendes, considerado um dos idealizadores do “teto de gastos”, aprovado em 2016 na gestão do presidente Michel Temer e implantado a partir do ano seguinte.

Mendes faz a defesa do óbvio que, por essa característica, nem todos enxergam: no longo prazo, como deveriam ser as políticas públicas eficientes, o crescimento só acontece mediante um sistema econômico e institucional que viabilize o aumento da produtividade, fazendo mais e melhor com a mão de obra disponível e a incorporação de novas tecnologias.

Ocorre que, no mundo das disputas políticas, muitas vezes prevalece o curto prazo. A sensação mais que o fato. O benefício imediato, mesmo que comprometendo o futuro – ou deixando para outras administrações os passivos a serem geridos.

Na apresentação do livro, Ilan Goldfajn, ex-presidente do Banco Central e diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), resume e dá o tom: “Há muito vivemos no Brasil e na América Latina numa repetição de tentativas que produzem os mesmos erros. Políticas de curto prazo com consequências negativas no longo prazo parecem ser quase irresistíveis para políticos e para a nossas sociedades, que demandam resolução imediata de mazelas graves de longa data”.

O prefácio foi escrito por Marcos Lisboa, que atuou no governo Federal, e hoje dirige o Insper, o Instituto de Ensino e Pesquisa, em São Paulo. Lembra que os bons resultados econômicos dos anos 2000 foram gestados antes, desde a abertura comercial do final dos anos 80. As políticas fiscal e monetária foram aperfeiçoadas durante mais de uma década, sendo possível, então, o lançamento dos programas sociais na gestão FHC. O que teria dado errado para, 20 anos depois, estarmos revivendo velhos pesadelos de insegurança institucional, estagnação econômica e aumento da pobreza?

Mendes acredita que são vários os motivos para políticas públicas de baixa qualidade: diagnósticos incompatíveis com a realidade, falta de cuidadosa avaliação e definição precisa do problema a ser resolvido e, assim, o desenho de propostas inconsistentes. No final, gastar mal acaba sendo pior que não gastar.

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