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O lucro que o lixo esconde: por que o resíduo é um erro de design

Foto: divulgação
Foto: divulgação

Muitas vezes, ao entrar em reuniões de mentoria ou palestras, percebo que a palavra “sustentabilidade” ainda causa um certo desconforto em gestores focados em produtividade.

O mito de que ser verde custa caro ainda sobrevive. Mas, após 17 anos à frente da Papel Semente, eu prefiro inverter essa lógica: caro é o desperdício.

No mundo dos negócios, o resíduo nada mais é do que um recurso pago, processado e que, no fim, não gerou valor. É, na verdade, um erro de design, tanto do produto quanto do modelo de negócio.

Da linearidade à circularidade

O modelo mental que nos trouxe até aqui foi o “extrair, produzir e descartar”. Mas negócios do Brasil, e até mesmo do mundo, já não suportam essa linearidade. Manter esse modelo vai custar muito caro.

Segundo dados do Banco Mundial, a geração de resíduos sólidos no mundo deve crescer 70% até 2050 se nada for feito. No Brasil, produzimos cerca de 80 milhões de toneladas de lixo por ano, e o prejuízo econômico por não reciclarmos o que é reciclável ultrapassa os R$ 14 bilhões anuais, de acordo com a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais).

Esse cálculo considera toneladas de materiais recicláveis que não foram efetivamente reaproveitados e o valor econômico que isso representaria se processado corretamente.

Estamos literalmente enterrando dinheiro e oportunidades de inovação. A economia circular, pilar central do que praticamos na Papel Semente, propõe que o fim de um ciclo seja obrigatoriamente o início de outro.

Quando transformamos papéis descartados em convites, tags e embalagens que germinam flores e hortaliças, não estamos fazendo apenas um “produto ecológico”. Estamos eliminando o conceito de lixo e criando um ponto de contato emocional permanente entre a marca e o cliente.

Oportunidades para o líder estratégico

Para quem busca liderar no cenário atual, deixo três reflexões práticas que aplico na minha gestão:

  1. Analise seu descarte como matéria-prima: O que sua empresa joga fora hoje que poderia ser reinserido na cadeia ou transformado em um novo ativo?
  2. O Produto como Mensagem: Em um mercado saturado, o diferencial não está no que você vende, mas no que você deixa para trás. Sua embalagem é um problema para o seu cliente ou um presente para o jardim dele?
  3. Eficiência é Sustentabilidade: A dependência constante de novos insumos e processos lineares gera uma exposição altíssima a riscos regulatórios. Substituir essa lógica por cadeias circulares traz previsibilidade e maior interesse de investidores

A transição para o ESG real não acontece da noite para o dia, mas começa com uma mudança de olhar. O lixo só existe quando a nossa criatividade falha. E em um mercado global cada vez mais exigente, a circularidade é a nossa maior vantagem competitiva.

O que a sua empresa está jogando fora hoje que poderia estar florescendo amanhã?

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Fundadora e CEO da Papel Semente, palestrante e mentora de lideranças que buscam transformar impacto em estratégia de negócio.

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