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Quem são os profissionais raros que estão redefinindo produtividade na era da IA

Foto: divulgação
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Por Eduardo Barros, especialista em IA e CEO da WorkAI.

Nos últimos anos, o termo colaborador unicórnio tem ficado mais familiar no meio corporativo. Usado para descrever um profissional que dá “match” com todas as habilidades e formações exigidas na vaga — e justamente por isso ser tão raro de encontrar — agora, com a popularização da inteligência artificial generativa, ele ganha novas características. Esses profissionais não temem a IA, ao contrário, aprendem a dominá-la e, justamente por isso, estão moldando uma nova lógica de produtividade, com a introdução de diferentes agentes autônomos de IA em suas rotinas. Ao mesmo tempo técnicos, analíticos, curiosos e criativos, também costumam ser versáteis e apresentar rapidez de aprendizagem. Como geram alto impacto nos resultados das empresas, são altamente desejados por startups e organizações inovadoras.

 No universo das startups, o termo “unicórnio” ganhou notoriedade em 2013 a partir do artigo “Welcome to the Unicorn Club”, escrito por Aileen Lee, investidora de venture capital. No texto, ela cunhou o conceito para definir startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão, destacando sua raridade no mercado. Já a aplicação da metáfora ao contexto de pessoas, o colaborador unicórnio, foi posteriormente popularizada por Ryan Holmes, fundador da Hootsuite, plataforma de gerenciamento de mídias sociais. A escolha do termo não é casual: desde a Antiguidade, o unicórnio é retratado como uma criatura rara, forte e poderosa, apesar de nunca ter tido sua existência comprovada.

 Segundo o relatório “Work Change”, do LinkedIn, publicado em maio do ano passado a partir de dados coletados com trabalhadores de diferentes países, o mercado de trabalho passa por uma transformação sem precedentes. Nos próximos cinco anos, cerca de 70% das habilidades hoje exigidas para a maioria das funções serão diferentes, o que evidencia que a adaptabilidade deixou de ser um diferencial e passou a ser uma condição básica de relevância profissional. A inteligência artificial já não pode ser tratada como promessa futura, pois está integrada à rotina das empresas e acelera a renovação das competências demandadas.

 Colaboradores unicórnios exercem um papel relevante na circulação de conhecimento dentro das organizações. Ao se tornarem referências para os times, compartilham aprendizados práticos do cotidiano, aliando hard e soft skills à habilidade de operar junto a tecnologias de IA. Eles disseminam boas práticas e aceleram o aprendizado coletivo. Esse processo favorece a continuidade dos projetos, reduz a concentração de conhecimento em poucas pessoas e fortalece a organização no longo prazo, ampliando sua relevância em um mercado cada vez mais competitivo.

 Em agosto de 2025, a Meta contratou Matt Deitke, então com 24 anos, por um valor estimado em US$ 250 milhões, cerca de R$ 1,3 bilhão, para um contrato de quatro anos. O acordo chamou atenção no mercado de tecnologia e consolidou Deitke como um talento raro da nova geração, frequentemente associado ao perfil de profissional unicórnio. Pesquisador de destaque no Allen Institute for Artificial Intelligence, centro de referência em pesquisas de IA sediado em Seattle, ele também é cofundador da startup Vercept, especializada no desenvolvimento de agentes de IAl autônomos. O salário de Deitke é realmente excepcional, mas evidencia uma nova lógica do mercado: de tão valioso é o colaborador unicórnio que muitas vezes decide qual será seus ganhos. Já vi casos em que, em vez de negociar salário, o profissional conseguiu se tornar sócio da empresa contratante.    

 Dados do estudo “Futuro do Trabalho”, realizado pelo Fórum Econômico Mundial (WEF) em parceria com o Núcleo de Inovação, Inteligência Artificial e Tecnologias Digitais da Fundação Dom Cabral (FDC), mostra que 60% dos profissionais no Brasil enxergam a ampliação do acesso digital como uma das forças mais transformadoras do mercado de trabalho, com destaque para competências ligadas à inteligência artificial e ao processamento de informações, citadas por 86%, além de robótica e automação, apontadas por 58%. 

 No Brasil, a valorização de profissionais com combinação rara de habilidades técnicas e aptidão para trabalhar com inteligência artificial está se refletindo em um mercado de trabalho em rápida transformação, onde vagas que exigem competências em IA cresceram quase quatro vezes nos últimos três anos, segundo o estudo Barômetro Global de Empregos em IA 2025, da consultoria PwC. Essa dinâmica indica que, assim como os empregadores estrangeiros, os gestores brasileiros já não buscam apenas perfis tradicionais com diploma e experiência linear, mas sim indivíduos que demonstrem adaptabilidade, aprendizado contínuo e fluência em tecnologia. É a inteligência artificial redesenhando, de forma concreta, os critérios de relevância profissional nas mais diversas esferas do mercado de trabalho.

Vivemos um momento de transição que exige uma revisão profunda do papel dos chamados colaboradores unicórnios, ainda cercado por lacunas e decisões em aberto. Permanecerão restritos aos ecossistemas de empresas inovadoras ou romperão definitivamente as fronteiras corporativas e setoriais? Se se consolidarem dentro das organizações, não apenas influenciarão, mas forçarão uma redefinição do que hoje se entende por carreira, desempenho e profissional “tradicional”. 

Se, por outro lado, extrapolarem o ambiente corporativo, inaugurarão modelos de trabalho mais fluidos, autônomos e difíceis de capturar pelas estruturas atuais. Em qualquer um dos cenários, uma certeza se impõe: ignorar esse movimento não é uma opção, pois ele já está redesenhando o mercado, com ou sem o consentimento das empresas.

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