Por Igor Baliberdin, designer estratégico e fundador da LOOOP.
Um episódio recente colocou o design de aplicativos no centro de um debate global: o líder do Instagram foi chamado a depor em tribunal para responder sobre a responsabilidade do design da plataforma na saúde mental de jovens e adolescentes.
A notícia expõe um tema que sempre esteve presente nas discussões internas de produto, mas raramente ganhou a dimensão pública que merece: o design molda o comportamento.
E, quando mal direcionado, pode moldar sofrimento.
Recursos como endless scroll, notificações insistentes, feeds infinitos e loops de recomendação não são acidentes. São decisões conscientes de produto.
O problema começa quando essas decisões deixam de servir ao usuário e passam a servir exclusivamente ao tempo de tela.
O “ponto de parada” que desapareceu
O endless scroll remove algo muito sutil, porém essencial para o cérebro humano: o sinal de conclusão. Quando terminamos uma página, fechamos um capítulo ou concluímos uma tarefa, o cérebro entende que aquilo acabou. Existe um ponto natural de saída.
O scroll infinito elimina essa referência. Ele cria um fluxo passivo em que não há motivo racional para parar, apenas cansaço. No design, aprendemos a remover fricção para facilitar a vida do usuário. Mas quando aplicamos esse princípio a conteúdo infinito, transformamos facilidade em armadilha.
O usuário permanece, mas a qualidade dessa permanência despenca.
Para mim, o limite ético é claro: o engajamento deve ser consequência do valor entregue, nunca da captura da atenção. Se um produto precisa de truques psicológicos para manter alguém ali dentro, é porque tem pouco valor real.
O design deixa de ser ferramenta e vira sequestrador de tempo, especialmente grave quando falamos de crianças e adolescentes, que ainda estão formando seus mecanismos de autocontrole e recompensa.
O KPI errado cria o produto errado
Grande parte do problema nasce dentro das empresas, na definição dos indicadores de sucesso. Se o KPI é tempo de tela, frequência de retorno e retenção a qualquer custo, o resultado inevitável será um design que induz dependência.
Mas, se o KPI for resolução de problema, clareza de navegação, eficiência da tarefa e valor percebido, o produto muda completamente e o negócio prospera de forma muito mais sustentável.
Usuários cansados desenvolvem aversão. Usuários respeitados desenvolvem confiança. E confiança reduz CAC e aumenta LTV muito mais do que vício.
Existem alternativas claras e mais inteligentes. Design baseado em intenção cria pontos de saída, resumos do que foi visto, curadoria ativa do usuário e sensação de conclusão em vez de FOMO. Quando o usuário sente que concluiu algo, ele sai satisfeito. Quando sente que pode estar perdendo algo, ele sai ansioso, ou nem sai.
Ansiedade nunca construiu lealdade de marca.
Design responsável é estratégia de negócio
Costumo fazer uma analogia simples: se um engenheiro constrói uma ponte que desaba, ele é responsabilizado. No digital, as falhas não são estruturais, mas psicológicas e éticas. Não podemos mais nos esconder atrás do “eu só executei o briefing”.
Hoje já existem formas objetivas de medir se um design gera dependência, ansiedade ou compulsão: testes de fadiga cognitiva, análise de retorno não solicitado ao aplicativo e escalas validadas de uso problemático.
Se uma versão da interface aumenta a percepção de urgência, culpa ou FOMO, isso é um alerta tão sério quanto um bug crítico.
Acredito que estamos entrando na era do design responsável. Um design que será avaliado por autonomia do usuário, clareza de decisão, redução de fricção cognitiva, segurança emocional e uso intencional em vez de compulsivo.
Empresas que não souberem provar isso enfrentarão dois problemas inevitáveis: regulação e reputação. E aqui está o ponto estratégico que poucos discutem: o que não é medido não existe no board.
O design responsável deixará de ser uma pauta de UX para se tornar pauta de C-Level, como gestão de risco, estratégia de negócio e proteção de marca.
Vejo um futuro em que as melhores empresas serão aquelas que exigem menos da atenção do usuário para entregar mais valor. Porque, no fim, o melhor design não é aquele que prende você. É aquele que resolve sua vida e deixa você ir.