A combinação entre férias e qualificação profissional, prática conhecida como skillcation, começa a ganhar espaço entre brasileiros que buscam reposicionamento, atualização ou mudança de carreira.
O movimento não nasce isolado; ele acompanha a transformação do próprio ambiente educacional e da lógica de aprendizado no país.
Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) apontam que, em 10 anos, o número de ingressantes em cursos de ensino superior a distância cresceu 286,7%, entre 2014 e 2024.
“Não é só uma estatística; é sinal de uma mudança concreta de comportamento. A expansão do EaD consolidou um modelo mais flexível, modular e aderente às rotinas apertadas, exatamente o tipo de estrutura que viabiliza a ideia de aprender em períodos de pausa”, analisa Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S Educação, gestor de carreiras e PhD pela Unicamp.
Nesse contexto, skillcation surge como forma de usar o tempo livre, férias, folgas ou períodos de menor demanda, para desenvolver competências específicas. Segundo ele, este conceito se diferencia justamente por exigir clareza de propósito.
“Não é ocupar tempo ocioso com qualquer curso. É direcionar esforço para habilidades que gerem impacto real no trabalho, seja no aprofundamento técnico, na revisão de fundamentos, na preparação para um desafio futuro ou na construção de um diferencial competitivo que normalmente exigiria um percurso mais longo”.
O especialista destaca que a prática tem funcionado especialmente bem para quem sente estagnação profissional, para quem planeja mudança de área ou busca qualificação de forma acessível e rápida, além dos profissionais que usam o período de descanso como oportunidade de reflexão sobre carreira.
“São perfis que se beneficiam ao estudar sem pressão do expediente e que precisam de foco para transformar o retorno ao trabalho em vantagem concreta”.
A adoção consciente da skillcation, segundo ele, passa por alguns elementos-chave. O primeiro é escolher habilidades diretamente ligadas ao próximo passo profissional, evitando formações motivadas por modismos.
Em seguida, optar por formatos que permitam ritmo próprio, cursos curtos, modulares, com acesso contínuo ou vitalício, o que acompanha a expansão da educação a distância no Brasil.
Ele também chama atenção para um aspecto que costuma passar despercebido: a curadoria do que se estuda.
“Em um ambiente saturado de ofertas, a escolha não pode se limitar ao formato ou à conveniência. A qualidade do conteúdo, respaldo metodológico, base teórico-prática consistente e experiência real de quem ensina, é determinante para que a skillcation gere resultado. Com tanta opção disponível, é fácil cair em formações superficiais. O ganho só aparece quando o curso tem densidade e ligação direta com a prática profissional”.
Ele destaca ainda a importância de estruturar o estudo, preservando o caráter de descanso das férias, mas garantindo consistência suficiente para consolidar o aprendizado.
E, ao voltar ao trabalho, aplicar rapidamente o conteúdo aprendido, etapa fundamental para que a qualificação não se perca com o retorno à rotina.
Para ele, skillcation não é uma tendência passageira. A mudança estrutural do mercado, marcado por aceleração tecnológica, revisão constante de funções e necessidade de atualização contínua, faz com que o desenvolvimento deixe de ser evento pontual e se torne processo permanente.
“A pergunta central do profissional hoje não é mais quando vai sobrar tempo, mas como usar o tempo disponível para construir relevância e manter competitividade, mantendo o equilíbrio”, finaliza.