Economia SP - MEC Livros é lançado, mas especialista alerta para o abismo digital que pode limitar seu alcance

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MEC Livros é lançado, mas especialista alerta para o abismo digital que pode limitar seu alcance

Foto: divulgação
Foto: divulgação

No último dia 5 de abril, o Ministério da Educação lançou o MEC Livros, uma biblioteca digital pública e gratuita com aproximadamente 8 mil títulos, desenvolvida em parceria com a Biblioteca Nacional, com o objetivo de democratizar o acesso à leitura no Brasil por meio de uma plataforma acessível pelo computador, tablet ou celular, mediante login no gov.br

A iniciativa foi celebrada por gestores e educadores, mas colocou em evidência um debate que especialistas consideram inadiável sobre o real alcance da tecnologia para quem mais precisa.

Para Rairis Faetti, professora com mais de dez anos de atuação no ensino personalizado e fundadora do CRF – Educação Individualizada e Assessorias, pré-vestibular sediado em São José dos Campos, a resposta exige cautela.

“A realidade é que muitos alunos não possuem celular, computador ou sinal de internet para que possam usufruir desse benefício”, afirma.

O abismo entre a promessa digital e a sala de aula real

Os dados sustentam a preocupação. Segundo levantamentos do IBGE e da pesquisa TIC Kids Online Brasil, cerca de 2 milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos ainda não acessam a internet no Brasil. No total da população acima de 10 anos, são 20,5 milhões de brasileiros completamente desconectados. A desigualdade é regional e de classe: enquanto 94,7% dos domicílios urbanos têm acesso à rede, nas áreas rurais esse índice cai para 84,8%. Nas classes D e E, a exclusão digital é ainda mais severa.

O computador, ferramenta essencial para leitura de textos longos, é outro gargalo. Apenas 39% das casas brasileiras tinham um PC ou notebook em 2023, número que segue em queda. Nas famílias de menor renda, o celular é o único dispositivo disponível, mas apenas 37% dos jovens conectados conseguem acessar a internet de forma que suporte tarefas complexas como leitura aprofundada e pesquisa. Quase um em cada cinco jovens entre 9 e 17 anos sequer possui aparelho próprio.

O MEC Livros funciona como uma biblioteca real, com prazo de 14 dias para leitura de livros licenciados e limite de leitores simultâneos. O acervo inclui grandes nomes da literatura brasileira, como Jorge Amado e Machado de Assis, e autores universais como Fiódor Dostoiévski, José Saramago, Han Kang e Franz Kafka.

A plataforma conta ainda com recursos de personalização, como aumento de fonte e contraste, elementos de gamificação e apoio de inteligência artificial para dúvidas e sugestões de leitura. Para quem tem acesso, os recursos são robustos. O problema, aponta Rairis, é justamente esse.

“Não adianta ter o melhor livro digital se a escola não tem Wi-Fi de qualidade ou se o aluno não tem um dispositivo adequado em casa. Isso pode aprofundar a desigualdade entre escolas particulares de elite e escolas públicas de regiões periféricas ou rurais”, analisa a educadora.

Tecnologia como ponte, não como substituto

Além da infraestrutura, Rairis Faetti aponta um segundo risco que acompanha a digitalização apressada do ensino, com a ausência de orientação pedagógica para o uso das ferramentas.

“Sem o treinamento adequado, o dispositivo digital vira uma fonte de distração, redes sociais, jogos, em vez de uma ferramenta de estudo”, alerta.

Estudos de neurociência indicam que a retenção de textos longos e densos ainda é superior no papel para muitos perfis de estudantes, dado que, segundo ela, deveria orientar qualquer política de digitalização educacional.

A educadora não nega os méritos da proposta. Reconhece que a quebra de barreiras geográficas é real, em um país com as dimensões do Brasil, a logística de distribuição de livros físicos é um desafio monumental e que recursos de acessibilidade nativos, como leitura de tela e ajuste de contraste, representam avanços concretos. O que defende, porém, é uma abordagem híbrida, que combine o alcance do digital com a solidez do físico e com acompanhamento humano individualizado.

“O ideal não é a extinção do livro físico, mas a expansão do seu alcance. A tecnologia deve ser a ponte, nunca o muro. Para ser verdadeiramente inclusivo, o pacote de acesso ao conhecimento precisa chegar junto com o pacote de dados e com o dispositivo capaz de rodá-lo”, conclui.

O MEC Livros integra um ecossistema digital mais amplo do governo federal, que inclui o MEC ENEM, lançado em 2025, e o MEC Idiomas, previsto para abril, com cursos gratuitos de inglês e espanhol do nível básico ao avançado. A ambição do projeto é inegável. A pergunta que especialistas como Rairis Faetti fazem é se a infraestrutura do país está pronta para transformar essa ambição em realidade para todos os brasileiros e não apenas para os que já têm acesso.

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