Por Amure Pinho, investidor-anjo em mais de 51 startups e fundador do Investidores.vc.
A lógica do mercado parecia relativamente simples: investidores de startups buscavam grandes exits, enquanto investidores tradicionais priorizavam dividendos. De um lado, o modelo do venture capital foi construído em torno da valorização acelerada de empresas, com expectativa de retorno concentrada em eventos como IPOs, aquisições ou vendas estratégicas. Do outro, investidores de perfil mais conservador historicamente valorizaram empresas capazes de gerar caixa e distribuir lucro de maneira recorrente. Hoje, porém, essa divisão já não é tão clara. O mercado passou a exigir crescimento com sustentabilidade, e isso mudou a forma como investidores enxergam retorno.
Entre 2015 e 2021, o ambiente global de juros baixos favoreceu uma forte expansão do mercado de tecnologia. Fundos priorizavam empresas capazes de crescer rapidamente, mesmo operando no prejuízo, porque o objetivo principal era atingir valuations elevados e realizar exits bilionários no futuro. Com isso, lucro e geração de caixa frequentemente ficavam em segundo plano. O importante era crescer, conquistar mercado e atrair novas rodadas de investimento.
Esse cenário começou a mudar a partir de 2022, com a alta global dos juros e a redução da liquidez. O capital ficou mais caro, os valuations caíram e investidores passaram a cobrar fundamentos mais sólidos das empresas. A consequência foi imediata: eficiência operacional, geração de caixa e sustentabilidade financeira voltaram ao centro das decisões de investimento. Ao mesmo tempo, o mercado de IPOs desacelerou fortemente, reduzindo oportunidades de saída para fundos de venture capital e private equity.
Segundo dados da S&P Global Market Intelligence, o número global de exits em private equity cresceu em 2025, mas o valor total das operações caiu mais de 20%, refletindo múltiplos menores e maior dificuldade de monetização dos ativos. Isso evidenciou um problema estrutural: sem liquidez, os fundos têm dificuldade para devolver capital aos investidores e captar novos recursos. Em outras palavras, o exit continua sendo essencial para boa parte do ecossistema de inovação.
Por outro lado, o mercado também voltou a olhar com mais atenção para empresas capazes de gerar lucro consistente e distribuir resultados. Dividendos passaram a representar um sinal de maturidade financeira. Em períodos de instabilidade econômica, investidores tendem a valorizar a previsibilidade. Empresas de setores como energia, bancos e seguros continuam atraindo capital justamente pela capacidade de gerar caixa de maneira constante.
Isso não significa, porém, que dividendos sejam necessariamente superiores ao crescimento. Muitas empresas deixam de distribuir lucros porque conseguem reinvestir capital com retornos mais altos no próprio negócio. Foi o caso de gigantes, como a Amazon, durante grande parte de sua trajetória. Nesses casos, investidores aceitam abrir mão de dividendos no presente porque acreditam na valorização futura da empresa.
A diferença central está no perfil de risco e no horizonte de cada investidor. Quem busca dividendos normalmente prioriza estabilidade e preservação patrimonial. Já investidores orientados a exits aceitam mais volatilidade em troca da possibilidade de retornos exponenciais. No venture capital, por exemplo, o modelo inteiro depende da ideia de que poucos investimentos extraordinários compensarão dezenas de fracassos.
No Brasil, essa discussão também ganhou força nos últimos anos. Dados da KPMG apontaram mais de 400 operações de fusões e aquisições no terceiro trimestre de 2025, mostrando retomada gradual do mercado, embora ainda em um cenário mais seletivo. Investidores continuam interessados em crescimento, mas passaram a exigir empresas mais eficientes e com caminhos claros de monetização.
No fim, a pergunta “o investidor quer exit ou dividendos?” já não tem uma resposta única. O mercado atual mostra que investidores querem, acima de tudo, retorno sustentável. Em ciclos de maior liquidez e juros baixos, o apetite por crescimento e exits tende a aumentar. Em cenários mais incertos, empresas lucrativas e boas pagadoras de dividendos ganham relevância. O comportamento do capital acompanha diretamente o ambiente econômico.
Mais do que escolher entre uma coisa ou outra, o investidor contemporâneo busca equilíbrio entre crescimento, geração de caixa e liquidez. O sonho do exit bilionário continua forte, especialmente no setor de tecnologia, mas já não sustenta sozinho uma tese de investimento. Da mesma forma, dividendos seguem importantes, mas não substituem o potencial de valorização de empresas inovadoras. O que mudou é que o mercado ficou mais racional, crescimento sem sustentabilidade perdeu força, e sustentabilidade sem capacidade de expansão também passou a ter limites.