A Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa para se tornar uma ferramenta cada vez mais presente no mercado imobiliário brasileiro.
É o que defende Ramon Azevedo, fundador e CEO da Morada.ai, proptech especializada em soluções de IA para incorporadoras e construtoras.
A empresa realiza no dia 10 de junho, em São Paulo, a segunda edição do Morada Summit, evento que reúne lideranças do setor para discutir aplicações práticas da tecnologia em vendas, marketing e atendimento.
Atualmente, a Morada.ai atende quase 200 empresas do setor em quase todos os estados brasileiros e sua tecnologia já esteve envolvida em mais de R$ 15 bilhões em Valor Geral de Vendas (VGV) de seus clientes.
Capixaba radicado em Belo Horizonte, ele iniciou sua trajetória na tecnologia ainda na adolescência, quando desenvolvia softwares por conta própria.
Mais tarde, foi executivo de tecnologia e posteriormente atuou no mercado de Venture Capital. Foi ainda sócio e COO da Kunumi, startup de IA adquirida pelo Bradesco, antes de fundar a Morada.ai, em 2021.
Hoje, ele acompanha de perto as transformações provocadas pela IA em um dos setores mais tradicionais da economia brasileira.
Nesta entrevista ao Economia SP, o executivo fala sobre os desafios da digitalização do mercado imobiliário, o impacto da inteligência artificial na produtividade das incorporadoras e o que esperar do setor nos próximos anos.
Quem é a Morada.ai e qual é o papel da empresa no mercado imobiliário brasileiro?
Ramon Azevedo: A Morada.ai é uma proptech especializada em inteligência artificial para o mercado imobiliário. Nós desenvolvemos soluções que ajudam incorporadoras, construtoras e loteadoras, corretores a melhorar a forma como se relacionam com potenciais compradores, desde o primeiro contato até etapas mais avançadas da jornada de compra. Nossa principal tecnologia é a Mia, uma agente de IA capaz de atender consumidores 24 horas por dia, apresentar imóveis, responder dúvidas, realizar simulações de financiamento e encaminhar os clientes para as equipes comerciais. Hoje atendemos quase 200 empresas em quase todos os estados brasileiros, incluindo algumas das maiores incorporadoras do país, como Direcional, MRV, Plano&Plano, Patrimar/Novolar, Emccamp e Pernambuco Construtora. Juntas, essas empresas representam mais de R$ 60 bilhões em Valor Geral de Lançamentos (VGL), cerca de 25% de todo o mercado brasileiro. Ao longo dos últimos anos, nossa tecnologia já participou de mais de R$ 15 bilhões em vendas de imóveis, processando mais de 3,5 milhões de atendimentos e 71 milhões de mensagens. Nosso objetivo é usar a inteligência artificial para tornar a jornada de compra mais eficiente para o consumidor e mais produtiva para as empresas do setor.
O Morada Summit chega à segunda edição em um momento de forte discussão sobre inteligência artificial. O que diferencia o evento?
Ramon Azevedo: O mercado já passou da fase da curiosidade. Hoje, as empresas querem saber como gerar resultado. O Morada Summit nasceu para mostrar aplicações práticas da inteligência artificial no mercado imobiliário. Não estamos falando de tendências futuristas, mas de ferramentas que já estão aumentando produtividade, qualificando melhor os leads, acelerando vendas e reduzindo gargalos operacionais. A proposta é mostrar o que funciona na prática e como isso pode ser implementado nas operações das empresas. Nossa expectativa é reunir cerca de 400 participantes, com foco em executivos, gestores e lideranças do setor para debater aplicações práticas da tecnologia, com foco em automação comercial, qualificação de leads, atendimento e produtividade.
O que o público pode esperar das novidades que serão apresentadas no evento?
Ramon Azevedo: Vamos apresentar uma evolução da nossa plataforma, alinhada ao avanço dos agentes de inteligência artificial e à demanda do mercado por automação mais inteligente. Também vamos compartilhar dados, cases práticos e mostrar como a IA já está gerando resultados concretos em vendas, atendimento e produtividade no mercado imobiliário.
O mercado imobiliário historicamente é visto como um setor mais conservador. Como está a adoção de IA pelas incorporadoras?
Ramon Azevedo: Existe uma mudança acontecendo. Há poucos anos, a discussão era se a inteligência artificial faria sentido para o setor. Hoje, a pergunta é como implementá-la da melhor forma. Ainda existe uma diferença grande entre empresas mais avançadas digitalmente e aquelas que estão começando essa jornada, mas a pressão por eficiência está acelerando essa transformação. O mercado imobiliário trabalha com margens, velocidade de vendas e experiência do cliente. A IA impacta diretamente esses três pontos.
Quais são hoje os principais gargalos do mercado imobiliário que a inteligência artificial consegue ajudar a resolver?
Ramon Azevedo: O principal gargalo ainda é o tempo de resposta. O consumidor mudou, mas muitas operações comerciais continuam funcionando como há 20 anos. Hoje, mais de 52% dos leads chegam fora do horário comercial e cerca de 24% iniciam a conversa durante a madrugada. Mesmo assim, muitas incorporadoras ainda dependem exclusivamente de equipes humanas que trabalham em horário comercial. Isso significa perder oportunidades justamente no momento em que o cliente está mais engajado. Outro desafio é a qualificação dos contatos profissionais. O mercado recebe um volume enorme de contatos, mas nem todos estão no momento certo para comprar. A inteligência artificial consegue conversar com milhares de pessoas simultaneamente, identificar quem tem potencial real de compra, coletar informações sobre renda, perfil e interesse e encaminhar para o corretor apenas os leads mais qualificados. Em nossos levantamentos, a IA consegue qualificar até 87% dos leads, um desempenho cerca de 60% superior ao atendimento tradicional nas etapas iniciais da jornada. Além disso, a tecnologia reduz tarefas repetitivas, organiza informações, realiza simulações de financiamento, acompanha clientes ao longo do tempo e garante que nenhuma oportunidade fique sem resposta.
Existe um receio de que a IA substitua profissionais. Como você enxerga essa discussão dentro do setor imobiliário?
Ramon Azevedo: Eu vejo a IA muito mais como uma ferramenta de ampliação da capacidade humana do que de substituição. Comprar um imóvel continua sendo uma decisão emocional e financeira extremamente importante. O corretor continua tendo um papel fundamental na negociação, no relacionamento e na construção de confiança. O que a IA faz é assumir tarefas repetitivas, responder rapidamente, organizar informações e preparar melhor o processo para que o profissional humano atue onde gera mais valor.
Como você imagina o mercado imobiliário brasileiro daqui a cinco anos?
Ramon Azevedo: Acredito que veremos um mercado muito mais orientado por dados e inteligência artificial. As empresas que conseguirem integrar tecnologia à operação terão vantagens competitivas importantes. Não porque a IA substituirá as pessoas, mas porque permitirá operações mais eficientes, atendimento mais rápido e decisões mais inteligentes. Assim como aconteceu em outros setores, a tecnologia deixará de ser um diferencial para se tornar um requisito básico de competitividade.