O trabalho remoto aumenta o isolamento social e o sofrimento psicológico, especialmente entre quem mora sozinho.
A conclusão é de um estudo publicado na revista Science, assinado por economistas de Harvard, da Universidade da Virgínia e do Federal Reserve de Nova York, que analisou 588 mil pessoas entre 2011 e 2024 e comparou trabalhadores em funções que podem ser feitas de casa com os que atuam de forma presencial.
De acordo com os autores, o home office responde por cerca de um terço do aumento do sofrimento psicológico registrado no período após a pandemia.
A produtividade não caiu, o que ajuda a explicar por que o modelo continua desejado por boa parte dos profissionais.
Para Virgilio Marques dos Santos, sócio-fundador da FM2S, startup de educação, e PhD pela Unicamp, os números expõem uma discussão antiga.
“Sem método, qualquer modelo de trabalho acaba adoecendo o profissional”.
Ele lembra que a engenharia industrial enfrenta o tema há mais de um século.
“Os manuais de tempos e métodos das primeiras linhas de montagem já previam um fator de fadiga, uma folga que impedia o trabalhador de operar no limite. A fábrica tinha hora para terminar. O home office dissolveu essa fronteira”.
Segundo o especialista, o trabalho remoto se tornou um risco quando a tecnologia retirou as pausas e o horário de encerramento. Notificações no celular e ordens de serviço fora do expediente mantêm o profissional conectado o tempo todo.
Para ele, os mais afetados costumam ser profissionais em início de carreira, que dependem da convivência para aprender, e gestores acostumados a resolver problemas de forma informal.
Como preservar a saúde mental no home office
Para Virgilio, o trabalho remoto funciona bem quando a empresa recria os limites que a fábrica já tinha.
“Definir um horário fixo de início e de fim, trocar de roupa para marcar a transição entre a casa e o trabalho e silenciar as notificações fora do expediente são ações importantes para delimitar a fronteira entre o trabalho e a vida pessoal”.
No nível da equipe, o especialista sugere revisões diárias ou semanais das tarefas e um contato frequente com a liderança, em que o profissional relata o que avançou e onde encontrou dificuldade.
“A conversa que antes acontecia no corredor precisa virar rotina”, Esses rituais devolvem clareza de papéis e reduzem o isolamento”, finaliza.