Economia SP - GPT: como a tecnologia está reescrevendo o agente no mercado de capitais

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GPT: como a tecnologia está reescrevendo o agente no mercado de capitais

Foto: divulgação.
Foto: divulgação.

Por Francisco Michelin, diretor de negócios na GFT Technologies no Brasil.

O mercado de capitais talvez esteja prestando atenção ao GPT errado.

Enquanto grande parte das discussões corporativas se concentra nos avanços dos modelos de Inteligência Artificial (IA) Generativa, a questão mais estratégica para o futuro dos negócios está em outro significado da sigla: General-Purpose Technology (GPT), ou Tecnologia de Propósito Geral.

O conceito, desenvolvido pelos economistas Timothy Bresnahan e Manuel Trajtenberg, descreve tecnologias tão transformadoras que reconfiguram setores inteiros da economia, como a máquina a vapor, a eletricidade, os computadores e a Internet.

Não se trata de uma ferramenta capaz de aumentar produtividade ou eficiência, mas de uma nova infraestrutura sobre a qual mercados inteiros são reconstruídos. E a história do Mercado de Capitais pode ser contada por essas ondas tecnológicas.

A eletricidade conectou mercados antes isolados e ajudou a criar sistemas nacionais de negociação. Décadas depois, a Internet redefiniu a relação entre instituições financeiras e investidores, criando canais, modelos de negócio e categorias de empresas.

Em discussões recentes com especialistas em inovação e tecnologias exponenciais, durante um programa executivo realizado em maio deste ano, uma percepção apareceu de forma recorrente: a IA tem potencial para se tornar a próxima grande tecnologia de propósito geral, com capacidade de provocar uma transformação tão profunda quanto as anteriores.

Agora, uma terceira GPT emerge com a IA. A frase do cientista da computação Andrew Ng – “AI is the new electricity” (“A IA é a nova eletricidade”), tornou-se quase um consenso entre especialistas porque descreve uma mudança estrutural e não apenas tecnológica.

Assim como a eletricidade se espalhou por praticamente todos os setores produtivos, a IA está se tornando uma camada transversal de inteligência capaz de transformar processos, produtos, modelos operacionais e relações econômicas.

Estudos acadêmicos e econômicos já classificam a IA como uma candidata natural a nova tecnologia de propósito geral, com potencial de impacto sistêmico sobre produtividade, crescimento econômico e competitividade.

No Mercado de Capitais, essa transformação parece ir além da automação tradicional.

A primeira mudança é a emergência de agentes autônomos capazes de executar tarefas complexas, analisar informações, recomendar investimentos e, potencialmente, realizar transações de forma independente. Isso levanta questões inéditas para áreas como compliance, suitability, KYC e prevenção à lavagem de dinheiro.

Em um futuro não tão distante, instituições financeiras poderão se relacionar não apenas com pessoas físicas ou jurídicas, mas também com agentes digitais que tomam decisões econômicas em nome de indivíduos e organizações.

A segunda mudança está no modelo de geração de valor. Durante décadas, a indústria de tecnologia prosperou vendendo capacidade operacional, horas de desenvolvimento e projetos. A IA acelera uma transição para a entrega de resultados.

O foco deixa de ser o esforço empregado e passa a ser o desfecho alcançado. Para instituições financeiras, isso altera profundamente a forma de contratar tecnologia, medir desempenho e estruturar parcerias estratégicas.

O ativo mais valioso deixa de ser a capacidade de executar tarefas e passa a ser a capacidade de produzir resultados mensuráveis em escala.

A terceira transformação é organizacional. Em um ambiente onde humanos e agentes inteligentes trabalham juntos, o papel da liderança muda.

O diferencial competitivo passa a ser a capacidade de orquestrar sistemas híbridos, reduzir fricções entre pessoas e tecnologia e acelerar ciclos de aprendizado.

Organizações que conseguirem combinar conhecimento humano, contexto de negócios e IA em uma única arquitetura operacional terão vantagens difíceis de replicar. Mais do que liderar equipes, os executivos passarão a liderar ecossistemas cognitivos.

Ao mesmo tempo, a adoção da IA exige prudência. Os modelos atuais demonstram capacidades impressionantes, mas também apresentam comportamentos irregulares.

Pesquisas acadêmicas mostram que sistemas avançados podem alcançar excelente desempenho em determinadas tarefas e falhar em outras aparentemente simples.

Para um setor altamente regulado como o Mercado de Capitais, isso significa que governança, supervisão humana, auditoria e mecanismos de controle continuarão sendo elementos indispensáveis da arquitetura tecnológica.

Não basta automatizar; será necessário desenhar processos capazes de lidar com as limitações e inconsistências inerentes aos modelos atuais.

O aspecto mais desafiador, porém, talvez seja a velocidade. As grandes tecnologias de propósito geral do passado levaram décadas para transformar completamente a economia.

A inteligência artificial avança em ritmo muito mais acelerado. O ChatGPT alcançou cerca de 100 milhões de usuários em aproximadamente dois meses, uma das curvas de adoção mais rápidas já registradas para uma tecnologia de consumo.

O que está em jogo, portanto, não é apenas a adoção de uma nova ferramenta, mas a definição de quem ocupará as posições de liderança na próxima configuração do sistema financeiro.

Como ocorreu em todas as grandes GPTs da história, aqueles que compreenderem cedo a mudança terão a oportunidade de moldar o futuro. Os demais correrão o risco de apenas reagir a ele.

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