Economia SP - Reflexões para empresas que avaliam se tornar patrocinadoras em autogestão

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Reflexões para empresas que avaliam se tornar patrocinadoras em autogestão

Foto: Sarah Daltri.
Foto: Sarah Daltri.

Por Italoema Sanglard, head de saúde suplementar da Prospera, unidade de negócios do Grupo Funcional. 

A saúde suplementar corporativa está prestes a passar por uma mudança importante. Com a nova regulamentação das autogestões, prevista para entrar em vigor em julho de 2026, empresas de diferentes setores poderão se tornar patrocinadoras de uma mesma operadora de autogestão em saúde.

A expectativa é que o novo modelo desperte o interesse de companhias que buscam maior controle sobre custos assistenciais e maior participação na gestão da saúde de seus colaboradores.

Hoje, a contratação de planos de saúde no Brasil ocorre em três modalidades: individual ou familiar, coletiva por adesão e coletiva empresarial.

Atualmente, cerca de 73% dos beneficiários de planos de saúde estão vinculados a contratos empresariais, segundo dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Esse modelo se consolidou por permitir ganho de escala, diluição de risco e maior previsibilidade para operadoras e beneficiários.

Com a mudança regulatória, empresas que atualmente contratam planos corporativos poderão avaliar modelos de autogestão, especialmente por meio de estruturas já existentes no mercado.

Nesse formato, a companhia deixa de pagar apenas uma mensalidade fixa para participar mais diretamente da gestão e do risco assistencial do plano.

Na prática, isso significa que os custos passam a refletir mais diretamente a utilização real dos serviços de saúde pelos beneficiários, além das despesas administrativas necessárias para a operação do plano.

Apesar das potenciais vantagens em previsibilidade e gestão, esse modelo também exige maior maturidade operacional, capacidade analítica e disposição para absorver oscilações de custo.

Além disso, essa possibilidade não se aplica da mesma forma a todas as organizações. Embora não existam barreiras necessariamente legais, há fatores técnicos importantes, como escala mínima de beneficiários e maior previsibilidade estatística da população coberta, que ajudam a reduzir a volatilidade do risco.

Na autogestão, a empresa deixa de terceirizar integralmente o risco assistencial e passa a participar diretamente da sustentabilidade financeira do plano.

Por isso, torna-se fundamental assumir um papel mais ativo na gestão da saúde, com iniciativas de prevenção, coordenação do cuidado e uso estratégico de dados assistenciais.

Outro ponto relevante é a forma como os custos são distribuídos internamente. Muitas organizações buscam refletir as despesas com saúde em seus processos orçamentários, tentando alocar gastos por áreas ou diretorias. No entanto, o plano de saúde opera sob uma lógica coletiva de compartilhamento de risco.

Esse princípio, conhecido como mutualismo, permite diluir financeiramente casos de alto custo entre toda a população coberta, reduzindo volatilidade e preservando maior estabilidade ao sistema.

Existem diferentes modelos para distribuir esses custos internamente. Um dos mais utilizados é o rateio per capita, no qual o custo total é dividido proporcionalmente ao número de beneficiários em cada área. Esse formato preserva integralmente o mutualismo e evita distorções provocadas por eventos aleatórios.

Já no modelo de alocação direta, cada área absorve os custos efetivamente gerados por seus colaboradores.

Embora possa parecer mais justo sob a ótica da responsabilização, esse formato tende a aumentar significativamente a volatilidade, especialmente em situações de alta complexidade concentradas em um único grupo.

Entre esses extremos, modelos híbridos costumam oferecer maior equilíbrio. Neles, parte dos custos permanece compartilhada coletivamente, especialmente eventos de alta complexidade e baixa frequência, enquanto despesas mais previsíveis podem ser distribuídas conforme a utilização de cada área.

Esse desenho permite conciliar o princípio do mutualismo com mecanismos de gestão e conscientização sobre o uso dos recursos de saúde.

Do ponto de vista orçamentário, preservar o mutualismo, sobretudo em eventos de alto custo e baixa frequência, tende a fazer mais sentido para a sustentabilidade do sistema. A segmentação excessiva do risco pode fragilizar a lógica do seguro e gerar distorções na gestão corporativa.

Por outro lado, ampliar a visibilidade sobre padrões de utilização pode ser um instrumento importante para fortalecer ações de saúde corporativa, prevenção e engajamento dos colaboradores.

A ampliação das possibilidades de autogestão pode representar uma transformação relevante no mercado de saúde suplementar empresarial.

No entanto, antes de migrar para esse modelo, as organizações precisarão avaliar não apenas o potencial de controle de custos, mas também sua capacidade de governança, gestão assistencial e absorção de risco.

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