Economia SP - Menos unicórnios, mais negócios reais: o novo normal 

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Menos unicórnios, mais negócios reais: o novo normal 

Foto: divulgação.
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Por Amure Pinho, investidor-anjo em mais de 51 startups e fundador do Investidores.vc.

Em boa parte da última década, o sucesso de uma startup parecia ter uma única definição: tornar-se um unicórnio. A marca de US$ 1 bilhão em valuation passou a simbolizar inovação, crescimento e capacidade de transformar mercados. Rodadas bilionárias e expansão acelerada ganharam mais espaço nas manchetes do que indicadores como geração de caixa, retenção de clientes e eficiência operacional. Mas esse cenário mudou. O mercado descobriu que valuations elevados representam expectativas sobre o futuro, não necessariamente negócios saudáveis. O novo normal do ecossistema de inovação é pautado na construção de empresas capazes de crescer de forma sustentável.

Essa mudança foi impulsionada pelo fim do período de abundância de capital. Entre 2020 e 2021, juros historicamente baixos estimularam investimentos em ativos de maior risco, levando fundos de venture capital a aportarem volumes recordes em startups ainda em estágio inicial. Crescer rapidamente era mais importante do que demonstrar lucro. A lógica era conquistar mercado primeiro e encontrar rentabilidade depois.

Com a alta global dos juros e o aumento do custo do capital, esse modelo perdeu força. Segundo o relatório State of Venture, da CB Insights, o mercado global de venture capital passou por uma forte retração após o pico registrado em 2021, levando investidores a priorizarem empresas com fundamentos mais sólidos. Em vez de apostar apenas no potencial de crescimento, os fundos passaram a observar com mais atenção indicadores como receita recorrente, retenção de clientes, margens operacionais, eficiência de capital e unit economics. O foco deixou de ser exclusivamente o crescimento acelerado e voltou para a capacidade de gerar valor de forma consistente.

Essa transformação aparece de maneira clara na forma como as startups passaram a estruturar suas operações. Segundo dados da Carta, plataforma que acompanha dezenas de milhares de startups privadas em diversos mercados, 2023 marcou a primeira vez em anos em que o número de desligamentos superou o de novas contratações no ecossistema. O movimento refletiu uma mudança estratégica: em vez de expandir equipes continuamente, muitas empresas passaram a revisar estruturas, reduzir custos fixos e aumentar a produtividade dos times existentes.

Essa redução de estruturas não significou perda de capacidade de execução, pelo contrário. O avanço da inteligência artificial permitiu automatizar atividades antes altamente dependentes de mão de obra, como desenvolvimento de software, atendimento ao cliente, análise de dados, criação de conteúdo e processos administrativos. Como consequência, startups passaram a entregar mais resultados com equipes menores e menor consumo de capital.

Os ganhos de produtividade já começam a ser mensurados. Segundo o relatório The State of AI, da McKinsey, organizações que conseguiram capturar maior valor da inteligência artificial foram justamente aquelas que redesenharam seus processos de trabalho, e não apenas incorporaram novas ferramentas. Essas empresas relatam aumento de produtividade, redução no tempo de desenvolvimento de produtos, maior velocidade na tomada de decisões e melhor aproveitamento dos profissionais, permitindo escalar operações sem ampliar proporcionalmente suas equipes.

Esse novo cenário também alterou os critérios utilizados pelos investidores para avaliar empresas. De acordo com análises da PitchBook e da National Venture Capital Association (NVCA), métricas como burn multiple, receita por colaborador, margem bruta, CAC payback e geração de caixa passaram a ganhar protagonismo nas diligências dos fundos de investimento. Em outras palavras, crescer continua sendo importante, mas crescer consumindo menos capital tornou-se ainda mais relevante.

No Brasil, essa mudança representa um amadurecimento do ecossistema. Segundo levantamentos da Associação Brasileira de Private Equity e Venture Capital (ABVCAP), após o ciclo de investimentos recordes observado durante a pandemia, o mercado passou a operar com maior seletividade. Os aportes continuam acontecendo, mas estão mais concentrados em empresas que demonstram capacidade de execução, sustentabilidade financeira e modelos de negócio comprovados.

Essa transformação também altera o comportamento dos empreendedores. Se antes levantar grandes rodadas era visto como um objetivo em si, hoje cresce a preocupação em construir empresas eficientes desde o início. Em vez de utilizar investimentos para ampliar estruturas indiscriminadamente, fundadores passaram a priorizar automação, inteligência artificial, gestão orientada por dados e disciplina financeira. O objetivo deixou de ser crescer a qualquer custo e passou a ser construir operações resilientes.

Nesse contexto, ganharam força as chamadas “camel startups”. O conceito, apresentado pelo investidor Alex Lazarow, descreve empresas preparadas para enfrentar ambientes econômicos adversos, priorizando geração de caixa, eficiência operacional e crescimento sustentável. Diferentemente do modelo tradicional, em que sucessivas rodadas de investimento sustentavam a expansão, essas empresas procuram financiar cada vez mais seu crescimento com a própria operação.

Isso não significa que os unicórnios deixaram de existir ou perderam relevância. Empresas continuarão alcançando valuations bilionários, especialmente em segmentos como inteligência artificial, biotecnologia e software corporativo. A diferença é que o valuation voltou a ocupar o lugar que sempre deveria ter ocupado: consequência de uma operação sólida, e não objetivo principal da estratégia.

O ecossistema de inovação entra, assim, em uma fase de maior maturidade. Menos capital abundante exige melhor gestão. A inteligência artificial amplia a produtividade de equipes menores. Investidores valorizam cada vez mais eficiência operacional, geração de caixa e qualidade da execução. E o sucesso volta a ser definido pelo que realmente sustenta uma empresa no longo prazo: clientes satisfeitos, receita consistente e capacidade de gerar valor.

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