A dependência do Pix transformou a segurança cibernética em uma questão de continuidade operacional para bancos, fintechs e instituições de pagamento. Uma falha grave deixou de representar apenas prejuízo financeiro ou dano reputacional: pode comprometer a capacidade de uma empresa continuar operando no mercado de pagamentos instantâneos.
O avanço das exigências do Banco Central do Brasil aumenta essa pressão. Instituições financeiras e Provedores de Serviços de Tecnologia da Informação, os PSTIs, precisam demonstrar que seus controles de segurança, governança de dados e infraestrutura em nuvem funcionam de maneira permanente — e não somente durante auditorias.
Nesse cenário, relatórios periódicos e planilhas isoladas começam a perder espaço para plataformas capazes de acompanhar riscos, fornecedores, vulnerabilidades e evidências regulatórias de forma integrada.
A desconexão virou risco operacional
O Pix está entre as principais infraestruturas do Sistema de Pagamentos Brasileiro. Para instituições que construíram seus modelos de negócio ao redor das transferências instantâneas, uma eventual desconexão do Sistema de Pagamentos Instantâneos, o SPI, ou do Diretório de Identificadores de Contas Transacionais, o DICT, representa uma interrupção direta das operações.
O Manual de Penalidades do Pix, citado na Resolução BCB nº 507/2025, prevê medidas aplicáveis a participantes que descumpram regras operacionais e de segurança do sistema.
Dependendo da gravidade e do enquadramento da infração, as penalidades podem incluir multas, suspensão e exclusão do arranjo. O material apresentado pela Virtual Officer destaca a possibilidade de sanções que podem chegar a R$ 500 milhões e impedimento de até 60 meses para novos pedidos de adesão após uma exclusão.
Mais do que uma questão do departamento de tecnologia, o tema passou a ocupar a agenda de CISOs, responsáveis por riscos, encarregados de proteção de dados e conselhos de administração.
Governança em nuvem entra no centro da fiscalização
O arcabouço regulatório citado pela empresa inclui a Resolução BCB nº 538/2025 e a Resolução CMN nº 5.274/2025. As normas ampliam a necessidade de políticas formais de segurança cibernética, gestão de serviços em nuvem, monitoramento de vulnerabilidades e controle sobre empresas terceirizadas.
Entre as frentes que passam a exigir acompanhamento estão a proteção de dados vinculados ao DICT, a criptografia de informações em trânsito e em repouso, o controle de acessos privilegiados e a segurança dos canais de comunicação com a infraestrutura do Banco Central.
Também ganham peso os testes de continuidade de negócios e os planos de resposta a incidentes. Na prática, não basta possuir documentos que descrevam os procedimentos. As instituições precisam produzir evidências de que esses controles estão sendo executados.
Fornecedores ampliam a superfície de risco
A digitalização do sistema financeiro aumentou a dependência de provedores de nuvem, APIs, empresas de software e prestadores especializados. Essa estrutura permite ganhar escala, mas também amplia a superfície de ataque e a exposição a falhas externas.
Uma instituição pode manter controles internos adequados e, ainda assim, ser afetada por uma vulnerabilidade em um fornecedor conectado à sua operação.
Por isso, a gestão de riscos de terceiros passou a ocupar espaço central nas estratégias de cibersegurança. O acompanhamento envolve a análise de políticas, acessos, certificações, incidentes e evidências técnicas apresentadas pelos parceiros.
Além do controle de fornecedores, as instituições precisam acompanhar continuamente ativos externos, subdomínios, certificados digitais, portas abertas e configurações de ambientes como AWS, Microsoft Azure e Google Cloud.
Plataforma integra privacidade, segurança e conformidade
Foi para atender a esse ambiente mais complexo que a Virtual Officer, empresa sediada em Florianópolis, desenvolveu uma plataforma de gestão unificada de privacidade e proteção de dados.
A tecnologia reúne processos de governança, segurança cibernética, gestão de terceiros, mapeamento de dados, análise de lacunas regulatórias e monitoramento de ambientes em nuvem.
A proposta é reduzir a fragmentação entre os times de tecnologia, segurança da informação, privacidade e conformidade. Em vez de cada área trabalhar com bases e relatórios separados, as informações são concentradas em uma interface voltada à gestão dos riscos.
Um dos recursos utiliza uma lógica de mapeamento relacional para conectar ativos digitais, vulnerabilidades, fornecedores e controles regulatórios. Assim, uma evidência técnica pode ser associada a diferentes exigências normativas.
Segundo a empresa, esse modelo pode reduzir em até 80% o trabalho manual envolvido na organização e validação das evidências de conformidade.
Auditoria deixa de ser evento pontual
A mudança mais relevante está na forma como a conformidade passa a ser tratada. Durante anos, parte das empresas concentrou esforços na preparação para auditorias realizadas em períodos específicos.
O aumento dos riscos cibernéticos e a maior dependência de infraestruturas digitais tornam esse modelo insuficiente. Uma configuração considerada segura durante uma auditoria pode ser alterada no dia seguinte. Um novo fornecedor pode criar acessos adicionais, enquanto uma vulnerabilidade recém-descoberta pode afetar sistemas considerados estáveis.
“A desconexão da rede Pix não é uma falha operacional secundária. É um risco existencial imediato para qualquer banco ou fintech”, afirma Leo Goldim, CEO da Virtual Officer.
Segundo o executivo, as instituições precisam substituir auditorias pontuais e planilhas estáticas por indicadores atualizados, capazes de demonstrar a situação dos controles para as áreas de gestão e para o conselho de administração.
Cibersegurança passa a definir capacidade de competir
A regulação acompanha uma transformação mais ampla do mercado financeiro. À medida que as transações migram para canais digitais, segurança, privacidade e governança deixam de funcionar apenas como mecanismos de proteção e passam a definir a própria capacidade de uma instituição operar.
Para fintechs em crescimento, o desafio é ampliar a base de clientes e o volume de transações sem criar pontos cegos na infraestrutura. Para bancos tradicionais, a pressão está na modernização de sistemas, integração de fornecedores e controle de ambientes tecnológicos complexos.
Nesse contexto, a vantagem competitiva tende a estar menos na produção de relatórios e mais na capacidade de identificar falhas, relacionar riscos e comprovar a execução dos controles de forma contínua.
A próxima etapa de maturidade do setor financeiro brasileiro deverá ser marcada justamente por essa transição: da conformidade tratada como obrigação periódica para uma governança tecnológica incorporada à rotina operacional.