A inteligência artificial (IA) está transformando a forma como empresas operam, mas também elevando o grau de sofisticação das fraudes digitais.
Deepfakes, clonagem de voz, documentos falsificados e ataques cada vez mais complexos fizeram com que a identidade digital deixasse de ser um tema restrito à tecnologia para ocupar espaço nas estratégias de gestão, compliance e relacionamento com clientes.
Nesse cenário, soluções como certificação digital, biometria, autenticação multifator e validação de identidade ganham protagonismo ao oferecer mais segurança e confiabilidade às operações.
Nesta entrevista ao Economia SP, o CEO da Certifica&Co, Heitor Pires, fala sobre a evolução da confiança digital, os impactos da IA na prevenção de fraudes, os desafios enfrentados pelas empresas e as principais tendências que devem moldar o mercado de identificação digital nos próximos anos.
1. Como começou sua trajetória empreendedora? O que te fez escolher essa área de atuação?
Nasci em Formiga, no interior de Minas Gerais, e sou filho de um contador. Cresci acompanhando o trabalho do meu pai no escritório e foi essa convivência que despertou meu interesse pela contabilidade. Com o tempo, percebi que meu maior interesse estava em entender os desafios dos empresários e encontrar soluções que fossem além das obrigações fiscais e trabalhistas. Quando os processos começaram a ficar digitais e ganhar força no Brasil, identifiquei uma oportunidade na certificação digital. Como não havia uma certificadora em Formiga, muitos clientes precisavam se deslocar para outras cidades para emitir o certificado. Foi então que criei a Certifica Minas, uma AR que com o tempo se tornou AC2 e manteve a trajetória de crescimento em um mercado extremamente técnico, regulado e em constante evolução. À medida que a empresa crescia, entendi que poderia ir muito além da emissão de certificados. Estruturamos um modelo baseado em parcerias, oferecendo suporte comercial, marketing e gestão para outras certificadoras. Ainda com foco em inovar, firmei uma parceria com a Bry, empresa com 25 anos de mercado e fornecedora nacional de tecnologia de confiança digital. Ela atua com assinatura eletrônica e digital, carimbo do tempo, certificado ICP-Brasil e validação de identidade, integrados em um único stack via API. A parceria deu tão certo que, posteriormente, adquiri a empresa, que passou a fazer parte do grupo. A Bry À frente da Syngular, responsável pela emissão de mais de 350 mil certificados digitais por mês, dedico minha atuação à definição de estratégias, expansão de negócios e inovação. Acredito que empresas sólidas são construídas por pessoas que cultivam bons relacionamentos, enxergam oportunidades e têm coragem para transformar ideias em realidade.
2. Quais problemas a empresa resolve no mercado?
O grupo é um ecossistema de soluções em identificação digital que une tecnologia, gestão estratégica e inovação para impulsionar a transformação digital de pessoas, empresas e instituições. Atuando em todas as camadas da identidade digital, desenvolve produtos e serviços que tornam os processos mais seguros, simples e eficientes no mercado digital. A marca atua de forma integrada e é referência em gestão de certificados digitais, assinatura eletrônica, biometria, certificação digital e carimbo do tempo, sendo reconhecida por sua expertise em segurança da informação. Com sede administrativa em Formiga, Minas Gerais, e operação tecnológica em Florianópolis, Santa Catarina, temos unidades de atendimento em todo o país. O grupo combina relacionamento com clientes, excelência operacional e inovação contínua para oferecer soluções que simplificam processos, fortalecem a segurança digital e impulsionam o crescimento de parceiros e clientes. Após nos consolidarmos no mercado de certificação digital, alcançando a liderança nacional no setor, agora estamos determinados a criar a maior rede de distribuição de produtos e serviços digitais para pequenas e médias empresas. É um projeto que engloba uma estratégia multiproduto e multicanal, incluindo franquias, por exemplo.
3. Quais os principais números e conquistas da empresa?
Atualmente, temos cerca de 32% de todas as emissões de certificados digitais realizadas no Brasil, emitimos 350 mil Certificados Digitais por mês, o que nos rendeu a liderança em emissões no mercado. Isso significa que a cada três certificados emitidos no país um é Syngular. Somente no ano passado, registramos uma alta de 15,91% na receita. O resultado foi impulsionado pelas operações da Certifica, da Bry e da Syngular, que juntas faturaram mais de R$ 100 milhões.
4. Como as empresas podem garantir segurança nas operações digitais em um ambiente de negócios cada vez mais conectado e sujeito a fraudes?
O princípio do “zero trust”, que orienta a nunca confiar por padrão, sempre verificar, é o novo padrão do mercado. Hoje em dia, a confiança digital é o principal ativo de qualquer negócio. Ela impacta diretamente a experiência do cliente, a reputação da marca e a continuidade do negócio. Qualquer empresa que queira reforçar a segurança nos seus processos digitais precisa ir além da senha e combinar tecnologias como certificado digital, biometria, validação de documentos eletrônicos e autenticação multifator. Esse conjunto de checagens se complementa e cria barreiras difíceis de burlar. São esses recursos que dificultam a ação de fraudadores. Assim como a tecnologia evolui, as técnicas para burlar sistemas também ficam cada vez mais sofisticadas. Por isso, é tão necessário usar as “armas” disponíveis no mercado para reduzir as chances de golpe, como é o caso do certificado digital. A mensagem que costumo levar aos empresários é simples: proteger a identidade digital dos seus clientes é, hoje, proteger o próprio futuro da sua empresa. Quem entender isso primeiro vai se manter vivo e atuante no mercado; quem tratar como secundário vai pagar caro pela falha.
5. A IA tem algum impacto nisso?
Tem um impacto enorme. A mesma tecnologia que hoje representa a maior ameaça também é a nossa principal linha de defesa. Do lado dos fraudadores, a IA tornou facilitou a criação de deepfakes de vídeo e áudio, de documentos falsos e de clonagem de vozes a partir de poucos segundos de gravação. Golpes que antes exigiam conhecimento técnico avançado agora estão ao alcance de qualquer pessoa mal-intencionada, e isso explica porque vimos um crescimento tão expressivo nas tentativas de fraude nos últimos anos, especialmente em abertura de contas, aprovação de crédito e transações de alto valor. Por outro lado, a IA também permite que a gente possa reagir na mesma velocidade. Modelos de machine learning conseguem analisar milhares de sinais em milissegundos, padrões de digitação, geolocalização, comportamento de navegação, características biométricas, histórico transacional, e identificar anomalias que poderiam passar despercebidas por qualquer análise humana. Na parte de identidade digital, usamos IA para detectar sinais sutis de manipulação em documentos, verificar prova de vida real contra tentativas de deepfake e cruzar dados em tempo real para calcular o risco de cada operação. O ponto que sempre reforço é que a IA precisa ser usada com responsabilidade e transparência. Isso significa treinar modelos com bases diversas para evitar vieses, garantir explicabilidade nas decisões automatizadas e manter supervisão humana nos casos mais críticos. A pergunta não é mais se a sua empresa vai usar IA na segurança digital, mas com que qualidade e velocidade ela vai fazer isso.
6. Como a identidade digital vem se tornando um ativo essencial para empresas de todos os portes?
Praticamente toda relação comercial hoje começa no ambiente digital: um cliente que abre uma conta, um fornecedor que assina um contrato, um colaborador que acessa sistemas remotamente, um paciente que agenda uma consulta online. Em todos esses momentos, saber com certeza quem está do outro lado da tela é o que separa uma operação segura de um prejuízo enorme. E o certificado digital é a engrenagem que torna os processos confiáveis e juridicamente válidos. Ele é usado para acessar portais públicos, assinar documentos eletrônicos, emitir notas fiscais, declarar o Imposto de Renda, entre outras funcionalidades. Pequenas e médias empresas são os alvos preferidos dos fraudadores, que miram justamente em quem tem menos defesas. As recentes discussões sobre identidade digital colocaram a gestão de identidade no centro das obrigações do mercado. Empresas que não seguem as normas da LGPD acabam arcando com multas e sanções que inviabilizam o negócio. Ao mesmo tempo, ferramentas como a assinatura qualificada e as APIs de verificação em bases oficiais tornaram esse tipo de solução acessível até para negócios menores. Essas APIs compõem uma infraestrutura integrada ao negócio com soluções de assinatura eletrônica e digital, certificado digital, carimbo do tempo e validação de identidade que podem ser incorporadas diretamente a ERPs, CRMs, sistemas de gestão documental e plataformas próprias, sem interromper a experiência do usuário. Isso permite economia operacional e mais velocidade na rotina das empresas. Essa integração permite automatizar processos que antes dependiam de atividades manuais, sistemas isolados e circulação externa de documentos. O resultado é mais velocidade nas operações, redução de erros e retrabalho, melhor aproveitamento das equipes e economia com desenvolvimento, manutenção e atualização de diferentes soluções. Ao centralizar recursos críticos em um ecossistema de APIs, a empresa também ganha padronização, rastreabilidade e capacidade para processar grandes volumes com eficiência. Além de acelerar a transformação digital, as APIs da Bry ajudam a reduzir o tempo de lançamento de novos produtos e serviços, mantendo requisitos de segurança, conformidade e validade jurídica. Com documentação técnica, ambiente de homologação, suporte nacional e SLA, grandes organizações podem escalar suas operações digitais com mais previsibilidade e concentrar seus investimentos no que realmente diferencia o negócio. E o certificado digital é a engrenagem que torna esses processos confiáveis, conectando identidade, autenticidade e segurança à velocidade que as grandes operações exigem. Vejo a identidade digital como a base sobre a qual todo o futuro dos negócios será construído. Nada que é feito no digital funciona sem uma camada confiável de identificação. A empresa que trata identidade como custo vai continuar reagindo a fraudes e perdendo clientes na jornada. A que trata como parte do processo constrói confiança, escala com segurança e se posiciona para as oportunidades que ainda estão por vir.
7. Quais tendências da sua área de atuação para os próximos anos?
O aprimoramento dos serviços de confiança digital é uma realidade que permanece em constante evolução. A cada dia, surgem novos mecanismos para reforçar a segurança, simplificar processos e melhorar a experiência dos usuários. Na Syngular, estamos em consonância com as melhores práticas do mercado de tecnologia e oferecemos serviços e produtos focados em facilitar a rotina de pessoas e empresas que precisam usar o digital com segurança. Para isso, temos opções em assinatura digital, certificados digitais, carimbo do tempo, biometria, prova de vida e validação de documentos que são aprimoradas frequentemente para que nossos clientes possam fazer operações digitais com total confiança. E como a evolução faz parte do nosso DNA, já estamos nos preparando para uma nova fase do mercado de identificação digital, que envolve o Selo Eletrônico e a AR Eletrônica. O Selo Eletrônico vai assumir a função do e-CNPJ e desvincular a identidade da empresa do CPF de seus representantes legais. Com isso, o certificado passa a ser da pessoa jurídica de fato. Já a AR Eletrônica é provavelmente a mudança mais disruptiva desde a criação da certificação digital. Ela permite que o cidadão emita um certificado digital de forma totalmente auto-assistida, direto pelo celular, sem atendimento presencial e sem intervenção humana. É uma nova era para a identidade digital brasileira, com a confiança de alto nível deixando de ser um produto complexo e caro para se tornar infraestrutura acessível e escalável. Isso traz oportunidades enormes, mas também exige responsabilidade redobrada, principalmente no combate a deepfakes e fraudes de identidade. As empresas que se anteciparem a esse movimento, adaptando seus fluxos, integrando o Selo Eletrônico, aprimorando o certificado em nuvem e explorando as possibilidades da AR Eletrônica, vão sair na frente. As que ficarem esperando o prazo final vão fazer essa transição no susto, e isso, no nosso setor, costuma custar caro.