Economia SP - Mercado começa a reprecificar o SaaS com avanço dos agentes de IA, avalia CEO da AFPAR

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Mercado começa a reprecificar o SaaS com avanço dos agentes de IA, avalia CEO da AFPAR

Foto: divulgação
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Durante quase duas décadas, boa parte do mercado de software foi avaliada a partir da lógica do crescimento de receita recorrente, expansão de usuários, retenção elevada e capacidade de monetizar licenças. A chegada dos agentes de inteligência artificial começa a adicionar uma nova pergunta a essa análise: quanto do trabalho o software é capaz de executar de fato?

Segundo o Gartner, cerca de US$ 234 bilhões em valor do mercado global de SaaS podem sofrer pressão, até 2030, à medida que as aplicações empresariais são expostas à chamada arbitragem agêntica. O montante corresponde a cerca de 20% dos gastos das empresas com SaaS.

Para o empresário e investidor Arthur Frota, CEO da holding AFPAR, esse movimento não representa o fim do SaaS, mas uma mudança no que o mercado passa a reconhecer como o seu valor:

“O mercado não está deixando de acreditar no SaaS. Está deixando de premiar da mesma forma o software passivo, aquele que apenas organiza o trabalho, mas não assume nenhuma parte da execução”.

Na avaliação do executivo, a interface, a organização dos fluxos e a experiência de uso continuarão relevantes, principalmente em atividades como supervisão, aprovações e tratamento de exceções. O que muda é que esses elementos deixam de ser, sozinhos, o centro da proposta de valor.

“Por muito tempo, parte relevante do sucesso de um software estava na interface que organizava o trabalho humano. Com os agentes, esse valor começa a migrar para contexto, capacidade de execução e resultado entregue dentro do processo do cliente. A interface não desaparece, mas deixa de ser suficiente”, explica.

Com a experiência de quem viveu os dois lados da mesa, como fundador da Tallos, empresa de SaaS vendida para RD Station em uma transação de nove dígitos, e agora como empresário e investidor na próxima geração de negócios, ele enxerga que essa novo olhar para o valor do software já influencia conversas entre investidores e startups, especialmente em rodadas de captação.

“Enquanto muitos fundadores ainda defendem suas empresas com a lógica de três anos atrás, o investidor de 2026 começa a olhar para outras variáveis. Não basta dizer que o software tem IA. É preciso mostrar quanto do processo ele executa, quanto contexto ele acumula, quanto custa entregar essa inteligência e qual resultado volta para o cliente”, complementa.

AI SaaS: a camada que vai concentrar o capital

Ele defende que o mercado atravessa uma fase intermediária entre o SaaS tradicional e os sistemas plenamente autônomos, que ele chama de AI SaaS. Nesse modelo, empresas preservam a lógica de receita recorrente, mas incorporam agentes capazes de recomendar, automatizar e executar parte das atividades.

“O mercado passará a enxergar software em três camadas distintas: o SaaS tradicional, que monetiza previsibilidade e organização; o AI SaaS, que adiciona contexto e automação dentro do workflow; e os Sistemas Agênticos, capazes de executar partes relevantes do trabalho de forma coordenada, auditável e orientada a resultado. É justamente a última categoria que deve concentrar os principais investimentos nos próximos três a cinco anos”, prevê.

O lançamento do OpenAI Presence, anunciado em julho, reforça essa direção. A plataforma foi apresentada para permitir que empresas lancem e gerenciem agentes de voz e chat em processos como atendimento, vendas e operações internas. A SAP também apresentou sua visão de empresa autônoma, ancorando agentes de IA em processos de negócio, dados e governança para entregar resultados seguros, compatíveis e integrados à operação.

“O modelo está ficando mais acessível para todos. A diferença passa a ser a capacidade de conectar essa inteligência aos dados, processos, regras e permissões de cada empresa. Sem contexto, o agente pode até responder bem, mas não consegue operar o negócio com confiança”, avalia.

Janela para o Brasil

Na visão do executivo, o Brasil possui características que podem acelerar o surgimento de empresas nativas em inteligência artificial. Setores como jurídico, financeiro, tributário, saúde e logística ainda convivem com sistemas fragmentados, grande volume de trabalho manual e processos que dependem do conhecimento acumulado pelas pessoas.

Em solo nacional, o foco em execução já começa a colher frutos. É o caso da Enter, empresa que automatiza processos jurídicos críticos que, em maio deste ano, anunciou uma rodada Série B de mais de US$ 100 milhões. O deal foi liderado pela Founders Fund e o negócio alcançou um valuation de US$ 1,2 bilhão

“O caso da Enter é um sinal importante para o mercado brasileiro. A empresa  não se posiciona apenas como uma ferramenta para organizar o trabalho jurídico, mas como um sistema operacional para departamentos jurídicos, utilizando IA ao longo de diferentes etapas do processo. Ou seja, o capital não está premiando apenas uma nova interface para o jurídico, mas uma tecnologia que assume parte relevante da operação e gera impacto direto no cliente”, afirma.

Apesar da mudança de dinâmica, segundo Frota, isso não significa que todo SaaS tradicional perderá valor ou que qualquer empresa com agentes receberá valuations elevados.

“A palavra ‘agente’ já começou a aparecer em todo pitch. Mas chamar uma automação de agente não muda a qualidade da empresa. O que vai importar é quanto do processo ela realmente consegue executar, com qual nível de autonomia, qual custo, qual governança e qual responsabilidade sobre o resultado”, conclui.

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