Economia SP - O preço real das emissões e dos efluentes industriais para o saneamento brasileiro

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O preço real das emissões e dos efluentes industriais para o saneamento brasileiro

Foto: divulgação
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Por Alexandre Bastida, COO e diretor de Operações da Clark Solutions

Ao debater o avanço do saneamento básico no Brasil, é comum que a atenção se volte quase exclusivamente para as metas de universalização de água tratada e esgotamento sanitário estabelecidas pelo marco regulatório do setor. Os números do segmento impressionam: de acordo com o estudo nacional do Instituto Trata Brasil e dados da CNI (Confederação Nacional da Indústria): a universalização completa tem o potencial de injetar até R$ 1,4 trilhão em benefícios socioeconômicos e ambientais na economia nacional, e cada R$ 1 bilhão investido gera um retorno de R$ 3,1 bilhões para a economia como um todo. No entanto, por trás dessa engrenagem bilionária, há um desafio que também precisa ser considerado: o tratamento adequado de emissões atmosféricas e efluentes gerados pelas atividades industriais. 

Historicamente, parte da indústria nacional considerou a lavagem de gases e o controle de emissões como meros custos regulatórios ou obrigações para evitar multas ambientais. Essa visão ignora o verdadeiro custo da ineficiência. A ausência de uma engenharia de processos robusta na lavagem de gases não apenas contribui para o lançamento de poluentes na atmosfera, mas também pode acelerar a depreciação das plantas industriais e comprometer a vida útil de seus equipamentos. 

Da mesma forma, efluentes industriais lançados sem o devido tratamento podem atacar redes coletoras, bombas e sistemas de tratamento, causando desgaste precoce e aumentando os recursos necessários para manutenção. É um ciclo que precisa ser interrompido: enquanto o Brasil investe bilhões de reais para construir uma infraestrutura moderna de coleta e tratamento de esgoto, o controle inadequado dos efluentes na fonte pode comprometer parte desses investimentos. 

A desconexão torna-se ainda mais crítica sob a ótica de mitigação climática. O esgoto e os resíduos líquidos industriais não coletados e sem tratamento na fonte são grandes emissores de GEE (gases de efeito estufa), como o metano e o dióxido de carbono, lançados de forma difusa na natureza. Para dimensionar o problema, um estudo recente da MIT Technology Review revelou que a falta de tratamento de efluentes responde por 88% das emissões operacionais de GEE de grandes companhias de saneamento. Em contrapartida, a captação e o tratamento tecnológico adequado em ambientes controlados podem evitar a emissão de até 9,1 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente até 2050 apenas no estado de São Paulo.

A descarbonização da infraestrutura, portanto, ultrapassa o imperativo ecológico: trata-se de uma urgência de sobrevivência financeira para o setor industrial. Com a consolidação do SBCE (Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa) pela Lei 15.042/2024, as empresas passarão a operar sob regras rígidas de cotas de emissão. As organizações que não se adaptarem perderão competitividade no mercado global. Sob o SBCE, a eficiência na lavagem de gases, o reúso de água e a recuperação de bioenergia deixam de ser opcionais para se tornarem métricas diretas de retorno financeiro e de geração de CRVEs (Certificados de Redução Voluntária de Emissões).

Essa transição exige uma mudança no ecossistema de fornecimento nacional. Em projetos de maior complexidade, parcerias de fornecimento fragmentadas, que entregam apenas equipamentos ou componentes de prateleira, podem não ser suficientes para garantir os resultados esperados. O desafio da descarbonização, do controle ambiental e da proteção de ativos exige engenharia especializada e soluções completas entregues de ponta a ponta.

Tratar as emissões industriais com eficiência na lavagem de gases e gerir os efluentes adequadamente na fonte significa, antes de tudo, proteger os investimentos realizados tanto na infraestrutura industrial quanto no saneamento do país. Para atingir a universalização com sustentabilidade e competitividade internacional, é preciso identificar e reduzir esses custos invisíveis. A indústria deve ser uma força propulsora, e não um obstáculo, ao desenvolvimento nacional.

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