Economia SP - Logística reversa: como as novas regras ambientais impactam a indústria e o varejo

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Logística reversa: como as novas regras ambientais impactam a indústria e o varejo

Tiger Lily /Pexels
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Durante muito tempo, a responsabilidade de uma empresa sobre determinado produto era associada principalmente à fabricação, à comercialização e à entrega ao consumidor. Depois da utilização, embalagens, equipamentos e outros materiais frequentemente eram tratados apenas como resíduos.

Esse modelo vem sendo transformado pela logística reversa, um sistema que organiza o retorno de produtos e embalagens após o consumo para permitir seu reaproveitamento, reciclagem ou destinação ambientalmente adequada.

No Brasil, a logística reversa faz parte da Política Nacional de Resíduos Sólidos e possui regras específicas para diferentes setores.

Além das obrigações legais, o tema ganhou importância nas estratégias empresariais por sua relação com a economia circular, a eficiência no uso de recursos e o desenvolvimento de novos modelos de negócio.

O que é logística reversa?

Logística reversa é o conjunto de ações e procedimentos destinados a viabilizar a coleta e a restituição de resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento em seu ciclo produtivo ou em outros ciclos, ou para outra destinação ambientalmente adequada.

Na logística tradicional, os produtos seguem dos fabricantes até os consumidores.

Na logística reversa, determinados materiais percorrem o caminho de retorno após o uso.

Esse processo pode envolver:

  • consumidores que devolvem produtos e embalagens
  • estabelecimentos comerciais que recebem materiais
  • distribuidores e operadores logísticos
  • fabricantes e importadores
  • cooperativas e associações de catadores
  • empresas de triagem e reciclagem
  • entidades responsáveis pela gestão dos sistemas

O funcionamento depende do tipo de produto e das regras aplicáveis a cada cadeia.

Como funciona a logística reversa na prática?

Imagine um consumidor que precisa descartar um aparelho eletrônico sem condições de uso.

Em vez de encaminhá-lo ao lixo comum, ele procura um ponto de recebimento adequado.

O equipamento pode passar por etapas de coleta, armazenamento, transporte e triagem.

Os materiais recuperáveis são encaminhados a processos de reciclagem ou outras formas de aproveitamento, enquanto os componentes que exigem tratamento específico recebem destinação apropriada.

O Economia SP explicou a importância desse processo no artigo A importância do consumidor para a logística reversa.

A publicação destaca que a participação dos consumidores é fundamental para permitir o retorno de eletroeletrônicos e eletrodomésticos ao sistema.

Qual a diferença entre logística reversa e reciclagem?

Os conceitos estão relacionados, mas representam atividades diferentes.

A logística reversa organiza o retorno de produtos, embalagens e materiais depois do consumo.

Já a reciclagem é um processo de transformação de resíduos em matérias-primas ou novos produtos.

Um sistema de logística reversa pode encaminhar materiais para reciclagem, mas também pode envolver reutilização, recuperação e outras formas de destinação.

Por isso, instalar um ponto de coleta não significa, por si só, que a reciclagem foi concluída.

É necessário acompanhar o destino dos materiais e comprovar os resultados conforme as exigências aplicáveis.

O que diz a legislação brasileira?

A principal referência é a Lei nº 12.305/2010, que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS).

A legislação estabelece o princípio da responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos.

Isso significa que fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, consumidores e poder público possuem atribuições distintas na gestão dos resíduos.

O artigo 33 prevê sistemas de logística reversa para determinadas categorias, independentemente do serviço público de limpeza urbana.

Entre elas estão produtos como:

  • agrotóxicos e determinadas embalagens
  • pilhas e baterias
  • pneus
  • óleos lubrificantes e suas embalagens
  • lâmpadas fluorescentes e similares
  • produtos eletroeletrônicos e seus componentes

Outros sistemas foram estruturados por regulamentações específicas, acordos setoriais e instrumentos previstos na legislação, incluindo diferentes tipos de embalagens e medicamentos domiciliares vencidos ou em desuso.

As obrigações concretas variam conforme o produto, o setor e as normas aplicáveis.

O que mudou para as embalagens plásticas?

A regulamentação brasileira avançou com o Decreto nº 12.688, de 21 de outubro de 2025, que instituiu o sistema de logística reversa de embalagens de plástico.

O decreto estabelece critérios para a estruturação e a operação desses sistemas, incluindo responsabilidades dos participantes, mecanismos de comprovação e metas de recuperação.

Também prevê regras relacionadas à utilização de conteúdo reciclado em novas embalagens.

Para as empresas, a regulamentação reforça a necessidade de conhecer os materiais colocados no mercado e estruturar mecanismos adequados de retorno.

O Economia SP abordou as consequências desse movimento no artigo As novas regras do ESG: como fica a indústria brasileira?.

O conteúdo destaca a importância de comprovar a destinação dos resíduos e integrar a gestão ambiental às decisões empresariais.

Quem é responsável pela logística reversa?

A responsabilidade depende da legislação específica de cada sistema.

De maneira geral, fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes possuem obrigações relacionadas à estruturação e à operação dos sistemas aplicáveis.

Os consumidores também precisam colaborar com a devolução dos produtos e embalagens nos locais indicados.

Já cooperativas, operadores logísticos e recicladores podem participar das etapas de coleta, transporte, triagem e processamento.

É importante destacar que responsabilidade compartilhada não significa que todos os participantes possuem exatamente as mesmas obrigações.

Cada setor deve observar suas regras próprias.

Como funciona a logística reversa coletiva?

Uma empresa pode estruturar um sistema individual de logística reversa ou participar de um modelo coletivo, quando permitido pela regulamentação.

Nos sistemas coletivos, diferentes organizações compartilham estruturas e mecanismos de operação.

Essa alternativa pode facilitar a criação de pontos de recebimento, a contratação de operadores e o acompanhamento dos resultados.

O Economia SP analisou esse modelo no artigo Sistema coletivo de logística reversa: escala e eficiência para a indústria.

A publicação apresenta a atuação coletiva como uma alternativa para ampliar a cobertura e a eficiência dos sistemas, especialmente em cadeias que envolvem grande quantidade de produtos distribuídos pelo país.

Entretanto, participar de uma entidade gestora não elimina automaticamente as responsabilidades legais da empresa aderente.

Como a logística reversa se relaciona com a economia circular?

A economia circular busca reduzir desperdícios e manter produtos e materiais em utilização pelo maior tempo possível.

A logística reversa contribui para esse modelo ao organizar o retorno dos materiais após o consumo.

Uma embalagem pode ser coletada, processada e utilizada na fabricação de outro produto.

Um equipamento pode ser recuperado ou ter componentes reaproveitados, quando tecnicamente viável.

O Economia PR detalhou essa relação no artigo Como funciona a economia circular? Entenda o modelo que reduz desperdícios nas empresas.

A publicação apresenta diferentes formas de manter materiais em circulação, incluindo reutilização, reparo, reciclagem e logística reversa.

A principal diferença é que a economia circular representa um modelo mais amplo de produção e consumo, enquanto a logística reversa constitui um de seus instrumentos.

Empresas já utilizam a logística reversa em suas operações

Um exemplo foi apresentado pelo Economia SC na reportagem Galvanotek recolhe 154 kg de plástico e dá destino sustentável a copos e garrafas PET durante a Libertadores de Futsal.

A empresa organizou uma iniciativa de coleta durante a competição realizada em Carlos Barbosa, no Rio Grande do Sul.

Segundo a publicação, foram recolhidos 69 quilos de copos plásticos e 85 quilos de garrafas PET, totalizando 154 quilos de plástico.

Os materiais foram destinados ao retorno à cadeia produtiva, demonstrando como eventos também podem ser utilizados para estruturar iniciativas de coleta e recuperação.

Logística reversa pode reduzir custos?

Em determinadas operações, sim.

O retorno de materiais pode reduzir a necessidade de adquirir algumas matérias-primas virgens, especialmente quando existe capacidade de reaproveitamento.

Também pode diminuir custos relacionados ao descarte ou criar oportunidades de comercialização de materiais recuperados.

Entretanto, a logística reversa possui despesas próprias.

Entre elas estão coleta, transporte, armazenamento, triagem, processamento e comprovação dos resultados.

Por isso, o impacto financeiro precisa ser analisado considerando toda a operação.

Uma iniciativa pode apresentar benefícios ambientais e atender obrigações legais mesmo quando não gera economia direta no curto prazo.

Reciclagem também pode criar novos negócios

A organização dos sistemas de retorno cria demanda por serviços especializados.

Empresas podem atuar na coleta, triagem, transporte, rastreabilidade e transformação de materiais.

Startups também podem desenvolver plataformas digitais para conectar geradores de resíduos, cooperativas e recicladores.

O Economia SC apresentou um exemplo na reportagem ZeroWasteX apoia municípios na gestão de resíduos sólidos e economia circular.

A startup desenvolve soluções para planejamento, monitoramento e gestão de resíduos, incluindo funcionalidades relacionadas à logística reversa e à coleta seletiva.

O caso mostra como as exigências ambientais também podem estimular o desenvolvimento de tecnologias e serviços.

Qual o papel das cooperativas de catadores?

As cooperativas e associações de catadores desempenham funções importantes na coleta, separação e comercialização de materiais recicláveis.

Além da contribuição ambiental, essas atividades podem gerar trabalho e renda.

A participação dessas organizações em sistemas estruturados exige condições adequadas de operação, contratação e remuneração.

O Economia SC discutiu essa dimensão no artigo O custo para a empresa e para o planeta dos pequenos resíduos.

A publicação destaca a importância da separação correta dos materiais e do relacionamento entre empresas e cooperativas.

Uma estratégia de logística reversa deve considerar não apenas a quantidade de resíduos recuperados, mas também as condições sociais e operacionais da cadeia.

Farmácias também participam da logística reversa

Medicamentos vencidos ou em desuso exigem cuidados específicos porque o descarte inadequado pode provocar riscos ambientais.

O Economia PR apresentou um exemplo na reportagem Farmácias Nissei amplia impacto das iniciativas ESG.

Segundo a publicação, a rede recolheu 1,53 tonelada de medicamentos vencidos ou em desuso no primeiro semestre de 2026 por meio dos pontos de descarte disponíveis em suas lojas.

A iniciativa demonstra como estabelecimentos comerciais podem funcionar como pontos de recebimento e participar da destinação adequada de produtos após o consumo.

Qual a importância da rastreabilidade?

Uma empresa precisa conhecer o destino dos materiais que retornam ao sistema.

A rastreabilidade permite acompanhar informações relacionadas à origem, movimentação, processamento e destinação dos resíduos.

Esse acompanhamento pode utilizar documentos fiscais, registros de transporte, sistemas digitais e mecanismos de verificação.

A necessidade de comprovação é especialmente relevante em sistemas sujeitos a metas regulatórias.

Apenas declarar que determinada quantidade foi coletada pode ser insuficiente para demonstrar que o material recebeu a destinação exigida.

O que são créditos de logística reversa?

Os créditos de logística reversa são instrumentos utilizados, nos sistemas e condições previstos na regulamentação, para comprovar determinados resultados de recuperação e reciclagem.

O Decreto nº 11.413/2023 estabeleceu mecanismos como o Certificado de Crédito de Reciclagem de Logística Reversa.

Esses instrumentos dependem de critérios de comprovação, rastreabilidade e verificação.

É importante não confundi-los com créditos de carbono.

Enquanto os créditos de carbono estão relacionados à redução ou remoção de emissões de gases de efeito estufa, os instrumentos de logística reversa tratam da comprovação de resultados ligados à recuperação de materiais, conforme suas regras específicas.

Quais são os desafios da logística reversa no Brasil?

Um dos principais desafios é a dispersão geográfica dos consumidores e dos materiais descartados.

Produtos podem ser comercializados em milhares de municípios, enquanto as estruturas de coleta e reciclagem estão distribuídas de maneira desigual.

Além disso, determinados materiais possuem baixo valor econômico ou exigem tratamento especializado.

Entre os obstáculos estão:

  • custos de transporte
  • baixa adesão dos consumidores
  • falta de pontos de recebimento
  • dificuldades de separação dos resíduos
  • infraestrutura insuficiente
  • ausência de informações confiáveis
  • complexidade regulatória
  • necessidade de investimentos
  • dificuldade para comprovar resultados

Superar esses desafios exige coordenação entre diferentes participantes da cadeia.

Pequenas empresas também precisam implementar logística reversa?

A obrigação depende do setor, dos produtos comercializados e da regulamentação aplicável.

Pequenos negócios que atuam em cadeias abrangidas por sistemas obrigatórios precisam verificar quais responsabilidades lhes correspondem.

Mesmo quando não existe obrigação específica de implementar um sistema próprio, a empresa pode adotar práticas de gestão de resíduos e participar de iniciativas voluntárias.

O primeiro passo é identificar quais produtos e embalagens coloca no mercado e quais regras se aplicam à sua atividade.

Como uma empresa pode começar?

A implementação de uma estratégia de logística reversa pode ser organizada em etapas.

1. Mapear produtos e embalagens: identificar quais materiais são comercializados e quais resíduos são gerados após o consumo.

2. Verificar as obrigações legais: avaliar as normas federais, estaduais e setoriais aplicáveis.

3. Escolher o modelo de operação: analisar a possibilidade de estruturar um sistema individual ou aderir a um sistema coletivo.

4. Definir os parceiros: selecionar operadores, entidades gestoras, cooperativas e recicladores adequados.

5. Organizar a coleta: estabelecer canais de devolução e orientar consumidores.

6. Garantir rastreabilidade: documentar o transporte, o processamento e a destinação dos materiais.

7. Acompanhar indicadores: monitorar volumes, custos, cobertura e cumprimento das metas aplicáveis.

A estrutura precisa ser compatível com a dimensão da empresa e com as exigências de seu setor.

Quais indicadores devem ser acompanhados?

Uma operação de logística reversa precisa avaliar resultados ambientais e financeiros.

Entre os indicadores possíveis estão:

  • quantidade de material colocada no mercado
  • volume coletado
  • percentual de recuperação
  • quantidade efetivamente reciclada
  • custo por tonelada recuperada
  • número de pontos de recebimento
  • cobertura geográfica
  • participação de cooperativas
  • percentual de metas atendidas
  • rastreabilidade da destinação

Os indicadores devem utilizar critérios consistentes para evitar a comparação de dados que representam etapas diferentes.

Por exemplo, o volume coletado não necessariamente corresponde à quantidade efetivamente reciclada.

Logística reversa deixou de ser apenas uma obrigação ambiental

A logística reversa conecta gestão de resíduos, legislação, eficiência operacional e inovação.

Para empresas sujeitas a sistemas obrigatórios, seu funcionamento adequado contribui para a conformidade e a gestão de riscos.

Para outros negócios, pode representar uma oportunidade de desenvolver serviços, melhorar processos e explorar novos mercados.

O avanço da economia circular também aumenta a importância de conhecer o destino dos materiais após o consumo.

Mais do que organizar o descarte, a logística reversa representa uma mudança na maneira como as empresas administram o ciclo de vida dos produtos e reconhecem valor nos recursos que retornam à cadeia produtiva.

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