Economia SP - Banco Central mantém Selic em 13,75% diante de inflação elevada e desaceleração da economia

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Banco Central mantém Selic em 13,75% diante de inflação elevada e desaceleração da economia

Ivo Brasil/Pexels
Ivo Brasil/Pexels

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano, diante de um cenário de inflação elevada, aumento das incertezas internacionais e desaceleração da economia brasileira.

A decisão considera a piora das expectativas de inflação para os próximos anos, os impactos dos conflitos no Oriente Médio sobre os preços do petróleo e a manutenção de condições financeiras restritivas nas principais economias.

No Brasil, os indicadores mais recentes apontam uma desaceleração mais acentuada da atividade econômica, especialmente nos setores mais sensíveis às condições de crédito e consumo. Apesar disso, a inflação continua pressionada, dificultando uma redução dos juros no curto prazo.

Expectativas de inflação chegam a 5,2% em 2026

Segundo o Banco Central, as expectativas de inflação apuradas pela pesquisa Focus se afastaram ainda mais da meta desde a reunião anterior. As projeções do mercado financeiro estão em:

  • 2026: inflação de 5,2%
  • 2027: inflação de 4,8%

Ambas permanecem acima da meta de inflação de 3% estabelecida para o país e do limite superior de tolerância, de 4,5%.

O próprio Copom elevou sua projeção de inflação para o segundo trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária, para 3,5%.

A revisão considera os choques de oferta observados desde a reunião anterior, incluindo os efeitos dos preços internacionais do petróleo e seus derivados.

Para o comitê, os riscos inflacionários continuam acima do habitual, com maior possibilidade de pressões de alta sobre os preços.

Economia brasileira apresenta sinais de desaceleração

Enquanto a inflação permanece elevada, a atividade econômica brasileira demonstra perda de ritmo. O Banco Central avalia que os indicadores divulgados desde a última reunião apontam uma desaceleração mais intensa, principalmente nos setores cíclicos, que costumam responder mais rapidamente às mudanças nos juros e na demanda.

O mercado de trabalho continua resiliente, mas também apresenta sinais de desaquecimento. Esse cenário cria um desafio para a política monetária: controlar a inflação sem intensificar excessivamente a desaceleração econômica.

A manutenção da Selic em patamar elevado encarece o crédito para consumidores e empresas, afetando decisões de consumo, financiamento e investimento.

Ao mesmo tempo, o comitê considera necessário preservar uma política monetária restritiva para evitar que a inflação permaneça acima da meta por um período prolongado.

Conflitos internacionais aumentam pressão sobre os preços

O ambiente internacional também contribuiu para a decisão do Banco Central. O prolongamento dos conflitos armados no Oriente Médio elevou as preocupações com os preços do petróleo e seus derivados, que influenciam custos de transporte, produção e energia.

Além disso, a manutenção de políticas monetárias restritivas nas economias avançadas aumenta a volatilidade dos mercados financeiros e representa um fator de atenção para países emergentes, como o Brasil.

Entre os principais riscos de alta para a inflação, o Copom destaca:

  • A manutenção das expectativas de inflação acima da meta por mais tempo
  • O aumento dos preços do petróleo e os efeitos de condições climáticas sobre a produção agrícola e a energia
  • A persistência da inflação de serviços
  • A desvalorização prolongada do real
  • Estímulos ao consumo que mantenham a demanda acima da capacidade de produção da economia

Por outro lado, uma desaceleração econômica mais intensa, tanto no Brasil quanto no exterior, poderia contribuir para reduzir as pressões inflacionárias.

O que a decisão significa para empresas e consumidores?

A manutenção da Selic em 13,75% significa que o custo do dinheiro continua elevado no país. Para as empresas, juros altos podem dificultar o acesso ao capital de giro, encarecer financiamentos e reduzir a atratividade de novos investimentos.

No comércio e nos serviços, o crédito mais caro também pode limitar o consumo das famílias, especialmente nas compras parceladas e de maior valor.

Para os consumidores, a decisão tende a manter elevados os custos de empréstimos e financiamentos, embora as taxas efetivamente cobradas dependam de outros fatores, como risco de crédito e condições de cada operação.

Por outro lado, a manutenção de juros elevados busca conter o avanço dos preços e contribuir para a preservação do poder de compra ao longo do tempo.

Banco Central reforça postura de cautela

No comunicado, o Copom destacou que o cenário atual exige serenidade na condução da política monetária. O comitê considera que a combinação de inflação pressionada, expectativas mais elevadas, incertezas externas e desaceleração econômica torna o ambiente particularmente desafiador.

A instituição também seguirá monitorando os efeitos da política fiscal sobre a economia, as expectativas de inflação e os preços dos ativos financeiros.

A decisão de manter a Selic em 13,75% foi tomada pelos sete integrantes do Comitê relacionados no comunicado, incluindo o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

O Copom não apresentou uma indicação explícita sobre quando poderá iniciar uma nova redução dos juros, reforçando que os próximos passos dependerão da evolução da inflação e das condições econômicas.

COMENTÁRIOS DO MERCADO

Thiago Aor, CFO da Cora

A decisão do Copom de interromper a sequência de cortes nos juros e manter a Selic em 13,75% ao ano está em linha com o que o mercado passou a esperar nas últimas semanas. A decisão vem depois de cinco cortes seguidos de 0,25 ponto percentual desde março. A pausa mostra que o Banco Central continua priorizando o controle da inflação e das expectativas sobre a evolução dos preços. O cenário se deteriorou nas últimas semanas: o real perdeu valor em relação ao dólar, os investidores passaram a exigir retornos maiores diante dos riscos e ainda há incerteza sobre o equilíbrio das contas públicas. Nesse contexto, interromper os cortes é uma decisão tecnicamente consistente e preserva a credibilidade conquistada no processo de redução da inflação. Para pequenas e médias empresas, a pausa adia um alívio que ainda não havia chegado por completo ao custo do crédito. Os juros permanecem elevados e continuam pesando sobre os recursos necessários para manter o negócio funcionando e sobre as decisões de investimento. Na prática, a maioria das PMEs deve continuar priorizando a gestão de caixa, a previsibilidade de recebimentos e o uso consciente do crédito, adiando os planos de expansão. A tendência é que a retomada dos cortes dependa de mais clareza sobre as contas públicas e de maior estabilidade do dólar. Até lá, empresas que acompanham de perto suas entradas e saídas de dinheiro terão mais condições de atravessar esse período com segurança e estarão mais preparadas quando o crédito voltar a ficar mais barato.

Rafael Pastorello, portfólio Manager do Banco Sofisa 

A decisão de manutenção dos juros pelo Copom não era consenso entre os agentes econômicos, mas reflete a avaliação do Banco Central de que o ambiente segue desafiador, tanto no cenário internacional quanto doméstico. O comunicado reforçou a preocupação com a elevada incerteza externa, especialmente diante dos desdobramentos dos conflitos no Oriente Médio, seus possíveis impactos sobre os preços do petróleo e condições mais adversas para a condução da política monetária nas principais economias deservolvidas. No âmbito doméstico, a autoridade monetária destacou a elevação dos riscos para a inflação e a necessidade de preservar uma postura cautelosa. Em destaque no comunicado, o Banco Central manteve um tom firme em relação ao compromisso com a convergência da inflação à meta. A avaliação do Copom sugere que, apesar da desaceleração mais acentuada da atividade econômica, os riscos inflacionários permanecem relevantes e seguem demandando vigilância. O cenário descrito evidencia preocupação com a desancoragem das expectativas, fator que limitou o espaço para uma flexibilização adicional da política monetária. No cenário doméstico, a condução da política fiscal permanece como um dos principais vetores para a trajetória da inflação e dos juros de longo prazo. Além disso, o aumento do prêmio de risco nos mercados e seus potenciais impactos sobre os preços dos ativos se somam aos possíveis choques de oferta decorrentes do conflito no Oriente Médio, reforçando a necessidade de maior prudência. Nesse contexto, entendemos que eventuais discussões sobre cortes de juros seguem condicionadas a uma melhora mais consistente do ambiente inflacionário global e local. Diante desse quadro, mantemos a avaliação de que a relação risco-retorno da renda fixa permanece atrativa. Destacamos oportunidades em títulos públicos prefixados, indexados à inflação e pós-fixados, que seguem apresentando assimetria positiva em um contexto de juros elevados e incerteza macroeconômica. Em um ambiente que ainda exige seletividade e diversificação, reforçamos a importância de uma alocação equilibrada. Além da parcela defensiva das carteiras, estratégias multimercado podem agregar valor aos portfólios, assim como exposições seletivas à renda variável, com preferência por setores mais defensivos e resilientes, como utilities, bancos e energia.

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos

A manutenção da Selic ocorreu principalmente pela deterioração das expectativas de inflação e pelo aumento das incertezas fiscais. Embora a atividade econômica esteja perdendo força, o Banco Central demonstrou pouca disposição para antecipar novos cortes enquanto o mercado continuar exigindo prêmios de risco mais elevados. O principal sinal para dezembro estará no comunicado, já que, se o Copom reconhecer uma desaceleração mais consistente da inflação e mantiver aberta a possibilidade de novos ajustes, teremos espaço para uma redução de 0,25 ponto percentual, embora considere esse cenário menos provável neste momento. O principal ponto de atenção não é apenas o nível dos juros, mas a dificuldade de reduzi-los de maneira sustentável

Volnei Eyng, CEO da Multiplike

O Banco Central interrompeu o ciclo de queda da Selic, que vinha sendo reduzida em 0,25 ponto percentual nas últimas cinco reuniões. Essa decisão está relacionada à desancoragem das expectativas de inflação. O principal instrumento do BC para controlar a inflação é justamente a taxa Selic. As expectativas apresentadas pelo Boletim Focus nesta semana, somadas ao cenário econômico, especialmente à alta do barril de petróleo e à valorização do dólar, indicam que a inflação projetada para os próximos 18 meses ficará acima do limite da meta, que é de 4,5%. Essa perspectiva levou o Banco Central a interromper os cortes, mesmo com a economia ainda em um cenário contracionista e com sinais de desaceleração. A tendência é que a Selic permaneça nesse patamar por um período mais longo, até que a inflação volte a se aproximar do centro da meta. A partir daí, o Banco Central poderá avaliar a retomada do ciclo de cortes. Também tivemos uma piora no ambiente interno nas últimas semanas, possivelmente relacionada à alta do dólar e a momentos de maior volatilidade. No cenário externo, a elevação do preço do petróleo e das taxas de juros em diversos países também contribuiu para essa decisão de interromper as reduções e manter a Selic.

Antonio Patrus, CEO da Bossa Invest

O custo de oportunidade do capital continuará sendo determinante para as decisões de investimento após a manutenção da Selic em 13,75% ao ano. A decisão do Copom demonstra que a piora das expectativas fiscais e cambiais passou a superar os sinais de desaceleração econômica. Com a inflação de serviços resistente e os juros americanos oferecendo remuneração elevada, investidores exigem retornos mais altos para assumir riscos em projetos empresariais de longo prazo. Esse mecanismo influencia diretamente a avaliação de negócios em expansão, porque taxas de desconto maiores reduzem o valor presente dos lucros projetados. Para crédito e consumo, a manutenção prolonga condições financeiras seletivas, enquanto empresas precisarão demonstrar capacidade de geração de caixa para sustentar investimentos. No venture capital, o cenário favorece uma análise mais rigorosa de receitas recorrentes, margens e perspectivas de rentabilidade, sem eliminar oportunidades em inovação. A expectativa é de estabilidade em dezembro e redução limitada dos juros ao longo de 2027, até aproximadamente 13%, com inflação próxima de 5%, caso a recuperação da confiança fiscal seja mais lenta

Leticia Moschioni, sócia da Finscale

O tempo que uma empresa leva para transformar uma venda em dinheiro disponível continuará tendo peso relevante sobre suas despesas financeiras após a manutenção da Selic em 13,75%. A decisão do Copom reflete a resistência da inflação doméstica e a deterioração das expectativas fiscais, fatores que pressionam o dólar e aumentam o custo de captação. Quando o câmbio sobe, empresas dependentes de insumos importados precisam financiar estoques mais caros; quando a inflação de serviços persiste, despesas operacionais também apresentam maior resistência à desaceleração. Os juros americanos elevados completam esse ambiente de restrição monetária. Para o consumo, a manutenção influencia as condições de parcelamento e a concessão de crédito. Nas empresas, o impacto aparece na antecipação de recebíveis e no financiamento de estoques, pois o capital permanece comprometido até a entrada das receitas. Isso torna a gestão do ciclo financeiro determinante para preservar recursos destinados a novos investimentos. A expectativa é de manutenção em dezembro e Selic próxima de 13% ao fim de 2027, com inflação de 4,9%, caso as pressões de custos continuem elevadas

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