Por Armando Ribeiro, CEO da Beneo.
O vibe coding começa a colocar em discussão uma questão importante para as empresas: até que ponto precisamos dominar uma tecnologia para conseguir utilizá-la na criação de soluções? Com a inteligência artificial, já é possível transformar instruções em linguagem natural em aplicações funcionais, testar ideias e aperfeiçoar resultados.
Essa possibilidade muda a maneira como uma ideia pode ser desenvolvida dentro de uma organização. Profissionais de diferentes áreas conseguem participar da criação de protótipos, experimentar alternativas e chegar a resultados concretos sem precisar mobilizar uma estrutura completa logo no início. Isso reduz o caminho entre identificar uma necessidade e verificar, na prática, se determinada solução funciona.
O Work Trend Index 2026, da Microsoft, ajuda a dimensionar essa transformação. Segundo a pesquisa, 58% dos profissionais que utilizam IA afirmam conseguir realizar trabalhos que não seriam capazes de executar um ano antes. Entre os usuários mais avançados, o índice chega a 80%. Embora o estudo não trate especificamente de vibe coding, os números mostram como essas ferramentas estão permitindo que as pessoas explorem possibilidades que antes dependiam de conhecimentos especializados.
Em 16 de outubro, São Paulo sediou o Lovable Day, considerado pelos organizadores o maior evento presencial do mundo dedicado à plataforma Lovable e ao conceito de vibe coding. O encontro reuniu mais de mil participantes, entre empreendedores, executivos e profissionais de diferentes áreas. Durante sua apresentação, Alexandre Messina, partner da Lovable no Brasil e fundador da VibeLabs, destacou o potencial da tecnologia: “A gente tem essa oportunidade enorme de negócio para construir em praticamente todos os setores”. A dimensão do evento demonstra o interesse crescente pelo vibe coding no Brasil e seu potencial de aplicação nos negócios.
Imagine um profissional de RH que precisa organizar informações de diferentes fontes para acompanhar determinada atividade. Ele pode utilizar o vibe coding para desenvolver um protótipo, avaliar sua utilidade e identificar melhorias. O mesmo raciocínio vale para inúmeras atividades dentro de uma empresa. Nem toda iniciativa precisa se transformar em um grande projeto para produzir aprendizado.
Essa experiência também terá consequências para o mercado de tecnologia. Quem começa a experimentar soluções desenvolvidas para necessidades específicas passa a olhar de outra maneira para os sistemas disponíveis. Funcionalidades pouco utilizadas, processos complicados e limitações que antes eram simplesmente aceitas passam a ser questionados. Os fornecedores precisarão acompanhar usuários cada vez mais exigentes.
É claro que existe uma diferença importante entre criar uma aplicação funcional e desenvolver um sistema preparado para uma operação corporativa. Segurança da informação, integração, arquitetura e manutenção continuam exigindo conhecimento especializado. O envolvimento das equipes de tecnologia permanece fundamental, inclusive para avaliar quais experiências podem evoluir com segurança.
O estudo da Microsoft também chama atenção para a importância da avaliação humana. Entre os entrevistados, 50% apontam o controle de qualidade dos resultados da IA como uma habilidade cada vez mais relevante, enquanto 46% destacam o pensamento crítico. Afinal, conseguir construir uma ferramenta não significa necessariamente que ela esteja pronta para ser utilizada.
Dentro das empresas, essa capacidade de criação exigirá novas discussões sobre gestão e governança. Como aproveitar as iniciativas que surgem nas equipes? Quais critérios devem orientar os testes? Em que momento uma experiência precisa envolver profissionais especializados? São questões que precisam acompanhar a adoção dessas ferramentas.
O vibe coding aproxima o conhecimento das pessoas das soluções que utilizam no trabalho. Uma ideia pode ser experimentada, aperfeiçoada e compartilhada com muito mais facilidade. E isso aumenta a responsabilidade das organizações de criar ambientes em que a iniciativa das equipes encontre espaço, orientação e critérios para se desenvolver.
O mais interessante será acompanhar como essa experiência mudará nossas expectativas. Afinal, depois de participar da construção de uma ferramenta pensada para uma necessidade real, será cada vez mais difícil aceitar soluções que não acompanhem a maneira como queremos trabalhar. E isto impactará, com certeza, a percepção sobre soluções existentes.