O que você pensaria se fosse embarcar em um voo adesivado como o avião acima?
Semana passada entrei num avião da GOL com o personagem Chico Bento estampado na fuselagem. Fiquei animado, por um momento achei que finalmente estávamos homenageando algo que fez bem a gerações de brasileiros: a cultura popular com valores simples, afetivos, rurais, quase terapêuticos. Mas bastou ouvir as crianças ao redor para a ficha cair: quase nenhuma reconhecia o personagem.
Chico Bento virou decoração de adulto nostálgico. As crianças estão em outra frequência. Mas vamos discorrer mais sobre isso:
Hoje, nossos filhos sabem decorar as falas de um influenciador mirim gritando desafios no YouTube, mas não reconhecem a fala cantada do Zé da Roça. Sabem navegar sozinhos no Roblox (onde já aconteceram casos documentados de aliciamento infantil), mas não têm a menor ideia do que é um gibi da Turma da Mônica.
Pra adulto que se emociona vendo vídeo de galinha no quintal no Instagram, lembrando da infância no sítio… mas que, no mesmo voo, entrega o tablet pro filho ficar quieto, sem nem saber o que ele tá assistindo. Adesivamos pra quem cresceu subindo em árvore, mas hoje deixa o algoritmo criar raiz na cabeça da criança. Gente que diz “na minha época era melhor”, mas entrega a infância dos filhos pra vídeos barulhentos, joguinhos viciantes e influenciadores gritando na tela. No fundo, o Chico Bento no avião não é homenagem mas um aviso. De tudo que a gente tá esquecendo, e do que as crianças estão deixando de viver.
Do jeito que vamos, não se espante se o próximo avião vier adesivado com a cara do Felipe Neto, com seus gritos performáticos e opiniões de efeito que mais dividem do que constroem. Ou pior, um avião plotado com personagens de jogos que se disfarçam de entretenimento, mas escondem riscos sérios: conteúdo sexual, violência, vício, manipulação de dados, e claro zero construção emocional real.
E ninguém tá falando de nostalgia gratuita aqui. A crítica não é contra o novo. É contra o vazio disfarçado de estímulo. Contra conteúdos que roubam o tempo, a atenção e a saúde mental das nossas crianças, sem dar absolutamente nada de valor em troca.
Enquanto a gente sobe nas nuvens com Chico Bento na lataria, nossos filhos mergulham num buraco negro de tela, onde ninguém sabe direito quem está falando com eles, o que estão aprendendo ou o que estão se tornando.
Se essa não for uma crise silenciosa, eu não sei o que é.
O ponto aqui não é proibir ou demonizar tecnologia. É acordar. É entender que quem educa, conecta e inspira não pode ser terceirizado para um algoritmo que só pensa em engajamento.
A pergunta que fica é: Quem você quer que sente ao lado do seu filho nesse voo da vida? O Chico Bento ou o próximo viral do TikTok?