Por Ricardo Maravalhas, fundador e CEO da DPOnet.
É mais do que constatado que nos últimos anos, desde quando a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) entrou em vigor no Brasil, os dados deixaram de ser um ativo abstrato para se tornarem um dos principais motores de competitividade, inovação e crescimento econômico. Para grandes corporações, esse movimento já é irreversível. Inteligência artificial, personalização de serviços e automação de processos dependem diretamente da coleta e análise de dados. No universo das pequenas e médias empresas brasileiras, no entanto, essa transformação ainda acontece de forma desigual, lenta e, muitas vezes, arriscada. O resultado é um paradoxo preocupante: justamente quem mais precisa de eficiência e previsibilidade é quem menos consegue extrair valor econômico dos dados de forma ética e segura.
Como sabemos, as PMEs (Pequenas e Médias Empresas) representam a espinha dorsal da economia brasileira. Elas respondem por grande parte dos empregos formais, sendo responsáveis por cerca de 80% da contratação da mão de obra e têm papel decisivo na geração de renda local. Ainda assim, operam em um ambiente cada vez mais vulnerável. Estudos recentes indicam que ataques cibernéticos causaram prejuízos estimados em até R$2,3 trilhões à economia brasileira em 2024, segundo o Instituto Nacional de Combate ao Cibercrime (INCC), afetando de maneira desproporcional pequenos e médios negócios, que raramente contam com estruturas robustas de segurança da informação.
Em muitos casos, um único incidente de vazamento de dados é suficiente para comprometer o caixa, gerar perda de clientes e até levar empresas ao encerramento das atividades. Não se trata apenas de um problema tecnológico, mas de um risco econômico sistêmico. Apesar desse cenário, grande parte das PMEs ainda encara a Lei Geral de Proteção de Dados como um entrave burocrático, um custo adicional em um ambiente já sufocado por impostos e insegurança jurídica.
Pesquisas como Bluepex Cybersecurity, mostram que muitas empresas de pequeno porte sequer compreendem plenamente as exigências básicas da LGPD, quanto mais suas implicações estratégicas. Apenas 15% dos gestores se consideram preparados em relação à LGPD. Essa leitura limitada da legislação ignora um ponto central do debate contemporâneo sobre dados. A proteção da informação não é apenas uma obrigação legal, mas um fator determinante de confiança, reputação e sustentabilidade econômica.
No cenário internacional, o debate já avançou alguns passos. Estudos da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) indicam que economias capazes de estruturar o acesso e o compartilhamento ético de dados podem alcançar ganhos relevantes de produtividade e crescimento do PIB. Há evidências de que empresas que utilizam dados de forma responsável tomam decisões mais assertivas, reduzem desperdícios, compreendem melhor seus clientes e aumentam sua capacidade de inovação. Em outras palavras, dados bem governados não apenas protegem, mas geram valor econômico mensurável.
O problema surge quando o uso de dados ocorre sem critérios claros, sem transparência e sem respeito aos direitos dos titulares. Além de expor empresas a sanções legais, essa prática corrói a confiança do consumidor, um ativo cada vez mais escasso em mercados altamente competitivos. Pesquisas globais mostram que consumidores tendem a abandonar marcas que não demonstram cuidado com suas informações pessoais. Para uma PME, que depende fortemente de relacionamento e reputação, essa perda pode ser fatal.
No dia a dia, o maior obstáculo não é a falta de vontade, mas a ausência de caminhos acessíveis. Muitas PMEs querem estar em conformidade, querem usar dados para crescer, mas não encontram soluções compatíveis com sua realidade financeira e operacional. Falta tradução prática e mostrar que a ética de dados não é um luxo corporativo, mas uma estratégia de sobrevivência e crescimento.
A solução passa menos por ampliar o arcabouço regulatório e mais por criar um ecossistema de apoio efetivo. Capacitação prática em proteção de dados, ferramentas tecnológicas acessíveis e políticas públicas de incentivo podem transformar a LGPD em uma alavanca de desenvolvimento econômico. Programas de treinamento voltados à realidade das PMEs, soluções de governança de dados no modelo de serviço e linhas de crédito específicas para segurança da informação são medidas capazes de reduzir riscos e ampliar a competitividade do setor.
Diante de todo esse cenário, o Brasil está diante de uma escolha estratégica. Pode continuar tratando dados apenas como um risco jurídico ou pode reconhecê-los como um ativo econômico fundamental, desde que usados de forma ética e responsável. Para as pequenas e médias empresas, essa decisão é ainda mais urgente. A ética no uso de dados não é um freio ao crescimento. Ao contrário, é o que pode garantir confiança, longevidade e relevância em uma economia cada vez mais orientada pela informação.