Por Luiz Claudio, CEO e fundador da LC SEC.
A transformação digital ampliou a dependência das empresas em relação a sistemas, redes, serviços em nuvem e fornecedores externos, tornando a continuidade das operações cada vez mais ligada à capacidade de prevenir e responder a incidentes cibernéticos. Por isso, proteger uma organização não significa apenas instalar ferramentas de segurança ou corrigir vulnerabilidades, mas também garantir que pessoas, processos e tecnologias estejam preparados para atuar de forma coordenada diante de uma crise.
O Global Cybersecurity Outlook 2026, do Fórum Econômico Mundial, aponta que 64% das organizações já consideram ataques cibernéticos motivados por questões geopolíticas em suas estratégias de risco. O levantamento também mostra que 31% dos entrevistados têm baixa confiança na capacidade de seus países de responder a grandes incidentes cibernéticos, enquanto, na América Latina e no Caribe, apenas 13% demonstram alta confiança na capacidade de proteção da infraestrutura crítica nacional.
No ambiente corporativo, o risco também está relacionado à exploração de vulnerabilidades e à dependência de terceiros. O Verizon Data Breach Investigations Report 2025, elaborado a partir da análise de mais de 22 mil incidentes e 12.195 violações confirmadas, registrou aumento de 34% na exploração de vulnerabilidades como vetor inicial de acesso. O ransomware esteve presente em 44% das violações analisadas, enquanto o envolvimento de terceiros chegou a 30%, aproximadamente o dobro do registrado no levantamento anterior.
Esses dados mostram que a segurança cibernética precisa ser tratada como uma questão de continuidade de negócios e gestão de riscos. Uma falha em um fornecedor, uma vulnerabilidade não corrigida ou um ataque direcionado pode interromper sistemas essenciais e exigir decisões rápidas de diferentes áreas da organização. Desse modo, ter procedimentos documentados é importante, mas não suficiente: é necessário saber se eles funcionam quando submetidos à pressão de um incidente real.
Um exemplo dessa necessidade pode ser observado no Exercício Guardião Cibernético 8.0, realizado entre 21 e 25 de setembro de 2026, sob coordenação do Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), do Exército Brasileiro. Considerado o maior exercício de defesa cibernética do Hemisfério Sul, o encontro reuniu organizações públicas, privadas, acadêmicas e operadores de infraestruturas críticas em cenários simulados de ataques digitais, com atividades voltadas à prevenção, proteção, detecção, resposta a incidentes, gestão de crises e recuperação.
A edição de 2026 contou com hubs em diferentes regiões do país, incluindo uma estrutura dedicada à defesa cibernética da indústria em São Paulo, organizada pela FIESP e pelo SENAI-SP, além de um hub no Rio de Janeiro, fruto de acordo de cooperação técnica entre a Firjan SENAI e o Exército. Manaus e Curitiba também integram a expansão regional do exercício. A proposta evidencia que a proteção de ambientes digitais depende da articulação entre diferentes setores e organizações, e não apenas da atuação isolada de uma equipe de tecnologia.
Essa integração é necessária porque as empresas fazem parte de ecossistemas cada vez mais interdependentes. Uma indústria pode depender simultaneamente de energia, telecomunicações, sistemas financeiros, serviços em nuvem, softwares especializados e parceiros logísticos. Da mesma forma, uma instituição financeira depende de fornecedores de tecnologia, redes de comunicação, sistemas de identidade e diferentes prestadores de serviços. Quando um desses componentes é comprometido, os efeitos podem ultrapassar os limites da organização atingida e alcançar outras empresas e serviços.
A partir dessa perspectiva, os exercícios de simulação ganham relevância ao permitir que as organizações reproduzam situações de crise e identifiquem não apenas vulnerabilidades tecnológicas, mas também falhas de comunicação, ausência de responsabilidades claramente definidas, dificuldades na tomada de decisão e dependências que não haviam sido consideradas no planejamento, criando uma oportunidade para avaliar, na prática, a capacidade de resposta diante de situações inesperadas, sem a necessidade de prever exatamente como um ataque real irá ocorrer.
Para empresas que não participam diretamente de exercícios nacionais, alguns desses princípios podem ser reproduzidos em escala corporativa. A preparação pode começar pelo mapeamento dos ativos e sistemas essenciais, identificação dos fornecedores críticos, avaliação periódica de vulnerabilidades e monitoramento de ameaças. Também é importante estabelecer previamente responsabilidades, canais de comunicação e níveis de autoridade para situações em que decisões precisam ser tomadas rapidamente.
Como complemento a esse processo, as organizações podem realizar simulações de ransomware, indisponibilidade de sistemas, comprometimento de credenciais, vazamento de dados ou ataques a fornecedores para avaliar como as diferentes áreas responderiam a uma situação de crise. Esse tipo de preparação deve envolver não apenas os profissionais de tecnologia, mas também áreas como jurídico, comunicação, recursos humanos, operações, continuidade de negócios e alta liderança, de acordo com os impactos que cada cenário pode provocar sobre a organização.
O principal recado provocado pelo Guardião Cibernético 8.0, portanto, vai além da defesa de infraestruturas críticas ou da atuação das Forças Armadas. A iniciativa reforça uma necessidade que também se aplica ao ambiente corporativo: organizações precisam descobrir antes de uma crise como suas pessoas, processos e tecnologias irão funcionar quando colocadas sob pressão. A resiliência cibernética não pode ser comprovada apenas pela existência de ferramentas, certificações ou planos de resposta. Ela precisa ser testada, revisada e exercitada continuamente. Quanto maior a preparação, menor tende a ser a dependência de improvisação quando um incidente real acontecer.