Por Bruno Sousa, Gerente de Marketing da Crescimentum.
“O que você quer ser quando crescer?” É uma das primeiras perguntas que a gente aprende a responder. Parece inofensiva, mas essa pergunta pode ter plantado um modelo mental que ficou: o de que existe uma fórmula óbvia para construir a sua carreira. Você escolhe uma profissão pré-existente, estuda, se forma, entra numa empresa e sobe. Quanto melhor o cargo, mais bem-sucedido o caminho.
O problema é que o mercado deixou de ser tão previsível quanto essa lógica pressupõe.
Segundo o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, cerca de 39% das competências centrais exigidas pelo mercado devem mudar até 2030. Um levantamento do LinkedIn mostra que 10% das pessoas contratadas em 2024 entraram em funções que sequer existiam no ano 2000 — e esse número só cresce.
Diante disso, tenho pensado que talvez a pergunta esteja errada. Em vez de “onde eu quero chegar?”, faz mais sentido perguntar: como eu quero estar preparado para continuar fazendo boas escolhas quando o mercado mudar?
Não é abandonar ambição nem planejamento. É não transformar um cargo específico em linha de chegada — porque existe uma chance concreta de essa função mudar, desaparecer ou deixar de fazer sentido para você antes de você chegar lá. O valor profissional está migrando da posição que se ocupa para a capacidade de navegar.
Nesse contexto, se faz necessário ter uma bússola própria. Dá para se inspirar na carreira de outras pessoas, aprender com trajetórias interessantes e buscar referências, mas ninguém consegue copiar integralmente o caminho de outra pessoa. Contexto, momento, escolhas e oportunidades são diferentes.
Também significa rever uma ideia que ainda pesa bastante no mercado: a de que qualquer movimento que não envolva um cargo maior representa um passo para trás. Um estudo citado pela Harvard Business Review mostrou que 60% dos CEOs classificados como “sprinters”, profissionais que chegaram mais rapidamente à posição de CEO, aceitaram em algum momento uma função aparentemente menor.
Nem todo movimento lateral é perda. Nem toda mudança de rota é fracasso. Às vezes, aquilo que parece um desvio é justamente o que aumenta o repertório para a próxima decisão.
Outro ponto que considero importante é parar de enxergar todas as pessoas ao redor como concorrentes. A carreira também é construída pelas conexões que fazemos e pela diversidade da nossa rede. Muitas oportunidades chegam por pessoas que não fazem parte do nosso círculo mais próximo, justamente porque elas circulam por ambientes, informações e possibilidades diferentes das nossas.
Mas não adianta acumular experiências se não sabemos explicar o valor que elas geraram.
O Fórum Econômico Mundial aponta que 63% das empresas enxergam a falta de competências como a principal barreira para suas transformações. Ao mesmo tempo, 70% esperam contratar profissionais com novas habilidades para apoiar o crescimento dos negócios.
Isso muda a conversa sobre carreira. Saber dizer apenas qual cargo você ocupou tende a ser cada vez menos suficiente. É preciso conseguir contar o que aprendeu, quais problemas resolveu, que impacto gerou e quais competências consegue levar para o próximo desafio.
E provavelmente algumas dessas competências também precisarão ser revistas. Aprender continua importante, mas desaprender e reaprender passam a fazer parte do mesmo processo.
Por isso, desconfio de qualquer fórmula muito pronta sobre carreira, inclusive das que acabei de apresentar. Cada profissional precisa fazer sua própria curadoria, filtrar conselhos e entender o que realmente serve para o momento que está vivendo.
Talvez a mudança mais difícil seja justamente aceitar que carreira não precisa terminar em um lugar previamente definido para dar certo.
Durante anos, fomos educados para chegar lá. O mercado que está surgindo parece exigir outra habilidade: continuar sabendo para onde ir quando o “lá” mudar. E talvez não chegar exatamente onde imaginamos não seja um erro no caminho. Talvez seja parte dele.