A fabricante mineira Bioclin cresceu 13% no primeiro semestre de 2026, acima do mercado de diagnóstico in vitro (IVD), que movimentou R$ 3,5 bilhões no período e avançou 8%, segundo a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL).
Com o resultado, a empresa ampliou sua participação e se consolida entre as quatro maiores fabricantes de capital nacional do setor e entre as três maiores em reagentes.
O desempenho vem às vésperas dos 50 anos da companhia, completados em 2027, e coincide com a conclusão da ampliação do parque fabril em Belo Horizonte, estrutura que deve sustentar uma expansão anual superior a 15%.
Faturamento de R$ 150 milhões e novas contratações
A Bioclin encerrou 2025 com faturamento de aproximadamente R$ 150 milhões e projeta crescer mais de 15% em 2026. A nova fábrica foi construída no próprio terreno da empresa para ampliar a capacidade produtiva.
Com cerca de 300 colaboradores, a fabricante prevê contratar entre 50 e 100 profissionais até o fim de 2026.
O portfólio reúne mais de 300 itens, entre reagentes tradicionais e soluções de biologia molecular. Só em 2025, foram mais de 30 lançamentos.
Três frentes de crescimento e receita recorrente
A estratégia se apoia em biologia molecular, voltada à precisão genética; triagem neonatal e pré-natal; e a divisão veterinária, que responde por 15% das vendas e cresce com diagnósticos rápidos para clínicas e consultórios.
O modelo de negócio combina expansão da base instalada e receita recorrente. Os equipamentos, avaliados entre R$ 50 mil e R$ 100 mil, funcionam como porta de entrada para o fornecimento contínuo de reagentes.
Dependência de insumos importados
O avanço esbarra em um desafio estrutural do setor: mesmo produtos fabricados no país dependem, em grande medida, de insumos importados, o que expõe a indústria ao câmbio e às oscilações das cadeias globais. Na Bioclin, cerca de 80% das matérias-primas vêm do exterior.
O gargalo aparece na Nova Indústria Brasil (NIB), política industrial do governo federal. A missão dedicada ao Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) é a única das seis que não deve atingir a meta de 2026.
O objetivo era que a produção nacional atendesse a 50% da demanda interna de saúde, mas o índice está em cerca de 42%. Para 2033, a meta é chegar a 70%.
O reflexo aparece na balança comercial: em 2025, o déficit no segmento de equipamentos e insumos médicos chegou a US$ 9,2 bilhões, puxado por produtos de alta complexidade tecnológica e matérias-primas para medicamentos e reagentes.
Pesquisa acadêmica para reduzir importações
Para diminuir essa exposição, a companhia mantém o programa Bioclin Educar, que concede bolsas de pesquisa e insumos a estudantes e pesquisadores de universidades do país, com foco no desenvolvimento de novas tecnologias diagnósticas.
No departamento de Pesquisa e Desenvolvimento, atuam mais de 20 mestres e doutores. A meta é levar conhecimento acadêmico à escala industrial e, no longo prazo, contribuir para uma cadeia nacional de fornecedores.
Exportações e teste rápido para hanseníase
A empresa exporta para países da América Latina, da África, Paquistão e Bangladesh. Ganhou projeção com um teste rápido para hanseníase, incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS) após aprovação da Conitec.
Agora, trabalha na internacionalização do produto para regiões endêmicas da Ásia e da América do Sul.
Segunda geração no comando
Fundada em 1977 pelo professor Victor Arndt, a Bioclin passou por reestruturação após a morte do fundador, em 2019. A gestão está hoje com o CEO Victor Arndt Jr. e o irmão, Silvio Arndt.
A transição incluiu a profissionalização da gestão, com apoio da Fundação Dom Cabral, a criação de um comitê familiar e a preparação da terceira geração, que já atua na operação.
Para a fabricante, ganhar mercado passa por ampliar produção e portfólio, mas também por construir uma cadeia tecnológica nacional, condição para que o crescimento do diagnóstico in vitro se traduza em maior participação do país na cadeia da saúde.