Economia SP - Por que conforto, praticidade e tempo ganham valor para consumidores

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Por que conforto, praticidade e tempo ganham valor para consumidores

Por Adriana Hack, fundadora e diretora executiva da Casa Mundo Latam.

Ter as contas em dia, dormir bem, cuidar da saúde, encontrar tempo para si ou simplesmente não viver correndo. Atitudes que poderiam parecer parte de uma rotina comum passaram a ser chamadas de “chiques” nas redes sociais, onde a trend do “acho chique” reúne justamente declarações de pessoas que admiram quem consegue sustentar hábitos que, em teoria, deveriam ser básicos.

Por trás do humor, existe uma transformação interessante naquilo que entendemos como uma vida desejável. Durante muito tempo, a ideia de status esteve associada principalmente àquilo que alguém conseguia exibir, como carros, roupas, viagens ou experiências exclusivas. Esses símbolos não desapareceram, mas passaram a dividir espaço com sinais menos evidentes de sucesso, como estabilidade financeira, tempo disponível, equilíbrio emocional e uma rotina que não esteja permanentemente à beira do caos.

Ao longo das pesquisas que realizamos na Casa Mundo Latam, percebo que essa mudança está diretamente ligada ao cansaço e à sensação de perda de controle que atravessam o cotidiano. Quando descanso, previsibilidade e organização se tornam recursos escassos, conseguir preservá-los também ganha valor e passa a comunicar que aquela pessoa conquistou algum domínio sobre o próprio tempo e suas escolhas.

A pesquisa “Status Quo do Me Mimei”, realizada com 524 pessoas no Brasil, México, Colômbia e Argentina, ajuda a dimensionar essa percepção. Entre os brasileiros, 77% concordam totalmente que ter uma rotina segura, previsível e com tempo para si virou um privilégio, enquanto 66% consideram que a vida cotidiana está mais cansativa do que deveria e 43% afirmam que é fácil perder o controle da própria rotina.

Não por acaso, o tempo também ganhou protagonismo quando falamos sobre bem-estar. Uma pesquisa realizada pelo Google em parceria com a Offerwise mostrou que 88% dos brasileiros associam bem-estar a momentos de tempo de qualidade, especialmente aqueles dedicados à família e ao lazer dentro de casa. O dado reforça que em meio a rotinas cada vez mais aceleradas, a disponibilidade de tempo também passa a influenciar a percepção de qualidade de vida.

É nesse cenário que hábitos aparentemente comuns começam a ganhar outro significado. Dormir oito horas por noite, não trabalhar aos finais de semana ou conseguir pagar todas as contas sem preocupação podem funcionar como sinais de uma vida bem administrada e, consequentemente, desejável.

A trend do “acho chique” traduz essa mudança de maneira simples. Quando alguém diz que acha chique quem tem a vida financeira organizada ou consegue fazer uma refeição com calma, não está apenas elogiando um comportamento, está reconhecendo que manter esse tipo de rotina pode ser, hoje, uma conquista.

Essa percepção não está restrita à forma como cada pessoa avalia a própria vida. A pesquisa mostra que, para 72% dos brasileiros, existe uma pressão social para parecer bem, saudável e no controle. Ou seja, ao desejo de encontrar equilíbrio soma-se uma expectativa de demonstrá-lo, criando uma contradição importante: aquilo que deveria representar bem-estar também pode se transformar em mais uma dimensão da performance cotidiana.

Quando perguntamos quais atitudes mais transmitem a imagem de que alguém está no controle da própria vida, 56% dos brasileiros apontaram ter a vida financeira organizada. Em seguida aparecem cuidar do corpo e da saúde, com 46%, e cuidar da saúde mental, com 36%. Dormir bem e descansar foi mencionado por 35% dos entrevistados, enquanto 33% citaram ter uma rotina organizada. Ter tempo para si apareceu para 28%.

Quando olhamos esses dados em conjunto, fica evidente que a imagem de sucesso passa cada vez mais pela capacidade de administrar diferentes dimensões da própria vida. Em vez de comunicar apenas aquilo que possui, uma pessoa também demonstra status quando parece conseguir cuidar do dinheiro, da saúde e do descanso sem abrir mão do próprio tempo.

Existe, porém, uma contradição nesse movimento. Por um lado, valorizar a saúde mental, o descanso e a organização financeira pode indicar que estamos construindo uma visão mais ampla sobre qualidade de vida. Por outro, esses elementos também podem se transformar em novas formas de cobrança. Já não basta ser produtivo ou bem-sucedido profissionalmente, é preciso também parecer descansado, saudável, equilibrado e no controle.

Nas redes sociais, essa lógica se torna ainda mais visível. Alimentação, exercícios, cuidados pessoais, uma casa organizada e até momentos de descanso podem funcionar como elementos de uma rotina que também é exibida e observada. O status não desaparece, mas assume uma estética diferente: em vez do excesso, ganha espaço a imagem de uma vida tranquila, funcional e bem administrada.

Isso não significa que todas as pessoas que compartilham esses momentos estejam apenas tentando demonstrar sucesso. As redes também ajudam a dar nome e visibilidade a desejos que já existem. A identificação gerada pela trend revela uma vontade coletiva de viver com menos pressa, mais previsibilidade e maior possibilidade de escolha, ao mesmo tempo em que evidencia o quanto essas condições deixaram de parecer garantidas.

Em um cenário marcado pelo cansaço, propostas baseadas apenas na novidade, na performance ou na ostentação podem perder relevância diante de soluções que entreguem praticidade, conforto, segurança e economia de tempo. O consumo continua participando da construção da identidade, mas passa a ser avaliado também pela capacidade de reduzir fricções e tornar a vida mais simples e administrável.

Isso muda também a forma como podemos pensar valor. Se tempo e controle se tornam recursos desejados, as marcas não disputam apenas o dinheiro do consumidor, mas também sua atenção, seu tempo e a quantidade de complexidade que estão adicionando ou retirando de sua rotina. Um produto ou serviço capaz de eliminar uma etapa, simplificar uma decisão, reduzir uma preocupação ou devolver tempo pode gerar valor justamente por oferecer algo que se tornou escasso.

Se antes o desejo era frequentemente construído a partir da ideia de ter mais, agora ele também pode surgir da possibilidade de precisar lidar com menos. Uma marca pode gerar valor não apenas pelo que oferece materialmente, mas pela sensação de autonomia, alívio ou controle que ajuda a proporcionar.

A popularidade do “acho chique” não significa que deixamos de desejar uma vida extraordinária. Talvez indique apenas que mudamos a própria definição do que é extraordinário. Em uma sociedade atravessada pela pressa, pelo cansaço e pela pressão para dar conta de tudo, ter tempo, descanso e organização passou a representar uma conquista. Aquilo que antes parecia apenas uma vida comum começa, cada vez mais, a ser percebido como uma vida privilegiada.

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