O comércio global entrou em 2026 operando sob uma tensão que deixou de ser “momentânea” e passou a se tornar uma preocupação real: a vulnerabilidade concentrada nas rotas logísticas.
O que antes era tratado como uma infraestrutura básica no dia a dia da importação e exportação, passou a ser reconhecido como ponto crítico de risco, especialmente diante do aumento das tensões geopolíticas, instabilidade energética e aumento da exposição das cadeias produtivas a eventos extremos.
Nos últimos meses, essa fragilidade deixou de ser suposição, com as tensões escaladas no entorno do Estreito de Hormuz reacendeu alertas em mercados internacionais, não apenas pelo histórico estratégico da região, mas pelo seu peso concreto: segundo a International Energy Agency, cerca de 20% do petróleo consumido globalmente passa diariamente por esse corredor e esse cenário de tensão de vai e vem, entre Estados Unidos, Irã e seus respectivos aliados, qualquer alteração, mesmo que pontual, tem potencial imediato de impactar preços globais de todo o mercado.
Ao mesmo tempo, o Canal de Suez voltou ao centro das discussões estratégicas após novos episódios de instabilidade na região do Mar Vermelho, incluindo ataques a embarcações comerciais e redirecionamento de rotas por grandes operadores logísticos. Dados recentes da UNCTAD indicam que interrupções nessa rota já vêm gerando aumento no tempo de trânsito e elevação relevante nos custos de frete, com impactos diretos sobre cadeias industriais na Europa e na Ásia.
Esse movimento não ocorre de forma isolada, porque ele revela uma característica estrutural do comércio internacional contemporâneo: aproximadamente 80% do volume global de mercadorias continua sendo transportado por via marítima, conforme a World Trade Organization, concentrado em um número limitado de corredores estratégicos.
Existe uma concentração, que “parece ter funcionado” durante décadas, e criou sinônimo de eficiência, mas ao longo dos anos, foi perceptível, essa escalada de risco amplificado, sempre que alguma tensão geopolítica se cria ao redor do mundo.
Percebe-se que qualquer crise geopolítica, dimensiona a crise energética constante que o mundo vive. Relatórios da U.S. Energy Information Administration mostram que chokepoints como Hormuz e Bab el-Mandeb são essenciais não apenas para o fluxo de petróleo, mas também para gás natural liquefeito e derivados críticos para a indústria global, porque essa combinação entre dependência energética e vulnerabilidade logística cria um efeito cascata: interrupções localizadas rapidamente se traduzem em volatilidade de preços, pressão inflacionária e reconfiguração de cadeias produtivas.
O ponto mais relevante, no entanto, não é apenas a existência desses gargalos, mas a mudança na forma como eles estão sendo interpretados por governos e empresas, temos a sensação que o mundo pode parar a qualquer momento.
É perceptível uma mudança absurda na lógica geopolítica, que antes era focada em eficiência internacional, e hoje foca em novas prioridades (absurdas), como riscos geopolíticos, imprevisibilidade e falta de resiliência operacional. Esses são os novos critérios centrais de decisão, e claro que, movimentos como nearshoring, friendshoring e regionalização não surgem de forma desconectada, mas como respostas diretas a essa nova leitura do sistema global.
Empresas que antes operavam com cadeias altamente dispersas passam a rever sua exposição a rotas críticas, enquanto governos intensificam políticas industriais e acordos estratégicos para reduzir dependências consideradas sensíveis. A logística deixa de ser apenas uma função operacional e passa a ocupar um papel central na estratégia econômica e na segurança nacional de qualquer cadeia produtiva.
O resultado é um redesenho silencioso, porém profundo, da arquitetura do comércio internacional.
Os chokepoints, antes vistos como passagens geográficas muito bem definidas, se consolidam cada vez mais, como pontos de pressão capazes de influenciar decisões de investimento, estruturação de cadeias produtivas e posicionamento internacional de países e empresas.. Em um mundo cada vez mais fragmentado, entender onde estão esses gargalos e como eles operam deixou de ser uma questão técnica e passou a ser uma condição essencial para qualquer estratégia global consistente.
Por isso, por aqui, acompanhamos de perto essas transformações e traduzimos esse cenário em decisões estratégicas para nossos clientes, estruturando operações que não apenas expandem, mas resistem a um mundo cada vez mais imprevisível.