Nas duas últimas décadas, computadores, tablets ou plataformas digitais, foram a promessa de que a tecnologia transformaria a educação. Esse movimento mobilizou bilhões em investimentos ao redor do mundo. Mas os resultados, em muitos casos, não vieram, e um número crescente de pesquisadores, educadores e até governos começa a questionar se o problema nunca foi a ferramenta, mas a ausência de método. No Brasil, quem trabalha com preparação para vestibulares já conhece bem esse dilema.
“O que vemos com frequência é o aluno com o notebook aberto, várias abas, e uma falsa sensação de produtividade. Aprender exige atenção profunda, e isso a tela, sozinha, dificulta. A tecnologia tem lugar no nosso modelo, mas é o método e o olhar individualizado sobre cada estudante que fazem a diferença nos resultados”, afirma Rairis Faetti, fundadora do CRF Educação Individualizada e Assessorias, em São José dos Campos.
O sinal de alerta veio do norte
O caso mais recente a colocar o tema em evidência vem da Suécia. O governo sueco, historicamente referência em inovação digital, anunciou uma virada e está retirando tablets das salas de aula para investir cerca de R$1 bilhão no reequipamento das escolas com livros físicos, lápis e papel. A decisão veio após dados alarmantes. Em 2022, 24% dos estudantes entre 15 e 16 anos não atingiram o nível básico de compreensão de textos, e o país despencou nas avaliações internacionais do PISA. Um relatório da OCDE apontou o uso intenso de aparelhos digitais nas aulas de matemática como fator associado aos resultados inferiores e concluiu que o país simplesmente colocou muitos aparelhos e tecnologia nas salas de aula sem intenção pedagógica clara e sem metas definidas.
O Brasil também não ficou alheio ao debate. Em janeiro de 2025, entrou em vigor a Lei Federal nº 15.100, que restringe o uso de celulares em escolas públicas e privadas de educação básica em todo o país, e o movimento já começa a alcançar o ensino superior, com instituições como Insper, FGV e ESPM adotando restrições semelhantes em suas salas de aula no início de 2026. O consenso que emerge, aqui e lá fora, aponta na mesma direção. O problema raramente é a tecnologia em si, mas a ausência de intenção pedagógica no seu uso.
Menos aulas, mais aprendizado
Para Rairis Faetti, o diagnóstico não surpreende.
“O que o movimento sueco acerta é reconhecer que tecnologia sem intenção pedagógica não funciona. No Brasil, corremos risco parecido se digitalizarmos sem pensar no aluno individual, nas suas dificuldades específicas, no seu ritmo. A inovação que realmente transforma é a do método, não necessariamente a da ferramenta.”
É justamente essa lógica que orienta o CRF desde sua fundação, em 2018. Inspirada na pedagogia personalista do espanhol Víctor García Hoz, a instituição estrutura o aprendizado em torno de planos de estudo individualizados, construídos semanalmente a partir da dificuldade do aluno, do peso do tema e da recorrência nas provas das universidades prioritárias. A estrutura conta com cerca de 30 professores, 10 assessores pedagógicos, 5 psicólogos e 3 pedagogos, além de mais de 75 horas semanais de plantão de dúvidas com atendimento individualizado. Para a fundadora, o equilíbrio emocional responde por um terço do resultado, ao lado de estratégia e conteúdo.
Os números validam a aposta. Na temporada de vestibulares de 2026, o CRF registrou 80% de aprovação, com 72 dos 91 alunos inscritos aceitos em ao menos um curso superior, conquistando vagas em Medicina, Direito, Engenharia e Economia nas principais universidades do país.
A tecnologia, nesse modelo, não é descartada, mas reposicionada. Em 2026, o CRF lançou uma calculadora digital gratuita do SISU que calcula em tempo real as chances de aprovação dos estudantes e sugere cursos alternativos quando a pontuação não alcança a primeira opção.
“A pergunta certa não é entre tablet ou caderno. É entender o que está realmente ajudando esse aluno a aprender. O que não pode é a ferramenta virar um fim em si mesma”, conclui Rairis.