Não se engane achando que as pessoas estão apenas focadas no final do ano. Na verdade, o orçamento de 2027 já está sendo desenhado e ele traz uma mensagem clara: diante de um cenário de maior incerteza, os CEOs não estão simplesmente cortando custos, eles estão escolhendo com mais rigor onde colocar dinheiro e onde parar de colocar.
Um levantamento da EY-Parthenon, divulgado em abril, mostra que quatro em cada dez CEOs no Brasil interromperam investimentos nos 12 meses anteriores: 8% desistiram de projetos planejados e 32% os adiaram. Ao mesmo tempo, 96% afirmaram ter ajustado seus planos de investimento estratégico diante do cenário geopolítico.
A lógica, portanto, parece menos relacionada a uma retração generalizada e mais a uma reorganização das prioridades. À corrida por implementações de inovação levou muitos gestores à apostar em projetos de retorno incerto, expansões pouco estratégicas e iniciativas que não conseguem demonstrar impacto (e tudo isso começa a perder espaço). Em contrapartida, produtividade, tecnologia e capacidade de transformação continuam no radar.
A inteligência artificial é talvez o melhor exemplo. Ainda segundo a EY-Parthenon, 72% dos executivos brasileiros pretendem aumentar os investimentos em IA em 2026, enquanto os demais 28% planejam manter os níveis atuais. Operações, atendimento e experiência do cliente, estratégia e tomada de decisão aparecem entre as áreas que mais sentem os efeitos da tecnologia.
Mas há uma mudança importante nessa discussão: não basta mais investir em IA, é preciso provar que ela transforma o negócio. Um estudo da PwC, divulgado em junho, mostra que apenas 30% das empresas brasileiras investem em IA com foco em resultados futuros, e somente 9% afirmam redesenhar fluxos de trabalho para incorporar a tecnologia. Entre as empresas consideradas líderes globais em IA, esses percentuais são 65% e 56%, respectivamente.
Isso ajuda a explicar onde provavelmente estará uma das grandes disputas de 2027: não entre empresas que têm ou não têm IA, mas entre aquelas que conseguiram transformar tecnologia em produtividade, receita e vantagem competitiva.
Outro ponto que merece nossa atenção: as pessoas! A 29ª CEO Survey, da PwC, mostra que 60% dos CEOs brasileiros esperam precisar de menos profissionais em início de carreira nos próximos três anos em função da adoção de IA. Ao mesmo tempo, a escassez de talentos qualificados continua entre os principais riscos percebidos pelos líderes.
A contradição é apenas aparente, porque o que está mudando não é necessariamente a importância das pessoas, mas o tipo de trabalho que as empresas precisarão delas para realizar.
Para 2027, isso coloca uma pergunta importante na mesa dos CEOs: quais funções devem ser automatizadas, quais competências precisam ser desenvolvidas e onde o investimento em pessoas continuará sendo diferencial? No fim, talvez o principal movimento dos próximos meses não seja um grande corte, mas uma seleção mais rigorosa.
Por fim, acredito que veremos, cada vez menos iniciativas sem clareza de retorno e mais investimentos naquilo que aumenta produtividade, abre novos mercados, melhora a experiência do cliente ou prepara a empresa para mudanças que já estão em curso.
O orçamento de 2027 pode até parecer uma planilha de números, mas na prática, ele será uma declaração de prioridades e propósitos. E os CEOs mais atentos já estão escrevendo essa declaração agora.