Nos últimos anos, a expressão Economia da Atenção ganhou destaque nas discussões sobre o mundo digital. Vivemos em uma época em que a informação é abundante, mas a atenção humana é um recurso escasso e altamente disputado.
E, nessa batalha silenciosa por cliques, visualizações e engajamento, as mulheres ocupam um papel central — tanto como consumidoras quanto como profissionais. A Economia da Atenção reflete a competição acirrada pela nossa concentração em um ambiente saturado de estímulos.
Empresas, criadores de conteúdo e plataformas digitais lutam incessantemente para capturar e reter nossos olhares. Afinal, a atenção se traduz em engajamento, que por sua vez gera lucros. Em uma sociedade hiperconectada, a atenção tornou-se a nova moeda de troca.
Esse conceito ganhou força com o advento da internet e das redes sociais, que inundam nosso cotidiano com informações e distrações constantes. Segundo o Banco Mundial, durante a última década, a economia digital contribui anualmente com mais de 15% do PIB global, crescendo 2,5 vezes mais rápido do que a economia física (Hayat, 2022).
Isso evidencia como a atenção humana se tornou um recurso valioso e mercantilizado. Embora a Economia da Atenção afete a todos, as mulheres enfrentam desafios únicos nesse cenário.
Um estudo da Globo revelou que, em meio a tantas responsabilidades, as mulheres buscam pequenos espaços de tempo para cuidar de si mesmas — seus “momentinhos”. Essas pausas são fragmentadas e, muitas vezes, espremidas entre outras tarefas, mas são vistas como momentos preciosos.
Curiosamente, cerca de 59% das mulheres utilizam essas breves pausas para acessar redes sociais, em busca de uma distração, uma inspiração ou até mesmo uma rápida sensação de conexão com o mundo externo.
Entretanto, o “momentinho” que deveria ser uma pausa para relaxar acaba se tornando mais uma oportunidade para que marcas e plataformas digitais capitalizem o tempo e atenção feminina. Assim, o “momentinho” vira alvo de estratégias de marketing para consumo de conteúdo que ressoe com suas vivências e desejos.
Segundo dados do DataReportal de 2024, 58,4% do público de anúncios do Instagram no Brasil é feminino. Isso demonstra que as mulheres são o principal alvo das estratégias de captação de atenção nas redes sociais.
A constante exposição a redes sociais e o excesso de estímulos têm consequências profundas para a saúde mental das mulheres. A WGSN relata que 64% das mulheres brasileiras enfrentam algum nível de ansiedade, enquanto 61% delas relatam casos de TOC e 75% sofrem de burnout.
A necessidade de estar “sempre conectada” cria uma dependência que afeta diretamente o bem-estar. Segundo a pesquisa Global Overview Report, 73% dos brasileiros se sentem viciados em seus dispositivos, enquanto 72% relatam que as redes sociais são uma distração constante.
Esse uso compulsivo e a sensação de “não desligar nunca” acabam exacerbando sentimentos de ansiedade e estresse. A infodemia, ou a sobrecarga de informações, contribui também para sentimentos de solidão e fragmentação das relações.
A necessidade constante de estar atualizada e de responder rapidamente às notificações cria um ciclo vicioso que prejudica o bem-estar geral. O fenômeno FOMO (Fear of Missing Out, ou medo de perder algo importante) é um dos principais vilões.
Quem nunca sentiu aquela vontade irresistível de checar o celular assim que uma notificação surge? Esse medo de ficar por fora é explorado pelas plataformas digitais para manter os usuários conectados. E para as mulheres, que já lidam com uma carga mental elevada e múltiplas expectativas, o FOMO se torna mais um elemento de pressão, que afeta tanto o bem-estar quanto a produtividade.
Como o FOMO se converte em números e comportamentos? O Brasil ocupa o 3º lugar global em tempo médio gasto na internet, o 1º em nível de ansiedade e tem 70% de sua população sofrendo com algum distúrbio do sono.
A jornada para equilibrar vida pessoal, carreira e saúde mental em meio ao caos digital é complexa, mas possível. O futuro, talvez, esteja na capacidade de desconectar para se reconectar.
Como impulsionar as mulheres na gestão da atenção, proteger seu tempo e bem-estar?
- Utilize aplicativos de monitoramento de tempo de tela. Isso permite definir um tempo limite diário para redes sociais. Assim, você evita que o tempo passe despercebido.
- Marque intervalos curtos de desconexão digital durante o dia. Experimente se permitir atividades offline como ler um trecho livro físico, conversar com uma amiga, fazer alguma atividade manual.
- Reserve um ou dois minutos para exercícios de respiração profunda ou meditação sempre que sentir ansiedade para checar o celular. Essa prática reduz o medo de estar “perdendo algo” e alivia o estresse.
- Vá até as configurações do celular e desligue notificações de aplicativos menos relevantes, como redes sociais e newsletters. Isso diminui os estímulos e a sensação de acúmulo de informações.
- Faça uma “limpeza digital” nas suas redes sociais, seguindo apenas perfis e páginas com conteúdo significativo, e silencie temporariamente perfis que não sejam relevantes no momento.
- Estabeleça metas como “não usar o celular durante reuniões” ou “evitar o uso do celular na mesa de jantar”. Isso aumenta a qualidade da sua atenção no que realmente importa.
- Encontre grupos, comunidades e até aplicativos focados em bem-estar digital, que compartilham estratégias para uma relação mais saudável com a tecnologia.
A Economia da Atenção nos força a refletir sobre o valor do nosso foco e como ele está sendo capturado e explorado. Para as mulheres, que já equilibram tantas responsabilidades, essa disputa por atenção se torna ainda mais desgastante — mas também uma oportunidade de transformação.
Talvez o verdadeiro poder esteja em reaprender a direcionar a nossa atenção de forma intencional, protegendo-a como um ato de autocuidado e autoconhecimento. A tecnologia continuará a avançar e os estímulos a nos rodear, mas podemos fazer escolhas mais conscientes. Podemos transformar os “momentinhos” em pausas genuínas, focadas no que realmente nos traz significado, conexão e força.
Então, que tal um novo pacto? Ao invés de deixarmos a nossa atenção à mercê das notificações e da ansiedade, vamos usá-la como um recurso, a ser investido em quem e no que realmente importa. Afinal, a atenção feminina é poderosa, e colocá-la em ação com propósito pode ser um dos maiores atos de autodesenvolvimento que podemos nos permitir.