Nasci em Porto Alegre e cresci em Florianópolis. Foi em Santa Catarina que construí boa parte da minha trajetória profissional. Trabalhei em grandes empresas do mercado de comunicação, conheci diferentes estruturas, cresci profissionalmente e, em determinado momento, percebi que tinha chegado a um limite.
Não necessariamente um limite meu. Um limite do mercado. Há cerca de 12 anos, quando deixei uma empresa em que já não enxergava possibilidades de crescimento, comecei a procurar novas oportunidades. E ouvi algumas vezes uma frase que, na época, parecia um elogio, mas que na prática era uma barreira:
“Seu currículo é muito bom, mas não temos como pagar o que ele vale.”
Foi quando comecei a perceber que talvez o problema não fosse apenas encontrar uma nova posição. Talvez eu precisasse encontrar um mercado maior. E foi assim que São Paulo entrou na minha história.
Quando mudar de mercado muda a forma como você se enxerga
Minha mudança para São Paulo aconteceu quando a pandemia me levou de volta ao mercado corporativo. O mercado de tecnologia já tinha avançado bastante, mas algumas áreas ainda estavam tentando entender o tamanho da transformação que vinha pela frente.
Marketing e comunicação ainda eram, em muitas empresas, áreas pouco estruturadas. Depois de algumas experiências profissionais que me fizeram perceber que o custo emocional e profissional já não compensava, decidi novamente olhar para São Paulo.
Consegui uma oportunidade para trabalhar em uma empresa paulista. Passei alguns meses trabalhando remotamente e depois fui morar em São Paulo, onde permaneci por cerca de dois anos. E foi nessa experiência que uma coisa curiosa aconteceu.
Estar em São Paulo mudou a forma como o mercado de Santa Catarina me enxergava
Pessoas que já conheciam meu trabalho há anos passaram a me procurar para novas oportunidades. Empresas catarinenses começaram a me chamar para conversar. E, em determinado momento, aceitei uma posição em Santa Catarina que representava um passo acima na minha carreira.
Eu estava em São Paulo, trabalhando para uma empresa de São Paulo, com uma visão mais nacional. E, de repente, Santa Catarina passou a olhar para mim de outra maneira. Isso me fez pensar muito sobre a forma como construímos autoridade profissional. Às vezes, não é apenas o que você sabe fazer. É o contexto em que você está fazendo aquilo.
São Paulo me ensinou a profissionalizar ainda mais o meu trabalho
Trabalhar em São Paulo me ensinou algumas coisas que carrego até hoje. Uma delas é a importância de documentação, planejamento e processos. Quando a velocidade de negócios é alta, a quantidade de informação circulando é enorme e muitas coisas acontecem simultaneamente, não dá para depender apenas da memória, da boa vontade ou de uma conversa no corredor.
É preciso documentar. É preciso organizar. É preciso saber onde determinada informação está, quem é responsável por ela, qual é o próximo passo e o que já foi decidido. São Paulo também me ensinou a ser mais objetiva. Mais seletiva. Mais “faca na bota”, como a gente costuma dizer.
Não necessariamente porque as pessoas sejam melhores ou piores em determinado lugar, mas porque o ambiente exige uma capacidade maior de lidar com muitas oportunidades, muitas demandas e muitas relações acontecendo ao mesmo tempo. E ninguém consegue estar em todos os lugares. Essa talvez tenha sido uma das maiores lições que trouxe de volta.
Estar em todos os lugares não significa aproveitar todas as oportunidades
Quando voltei para Florianópolis, percebi o quanto havia mudado. Eu queria estar em muitos lugares. Mas já não conseguia — e nem queria — estar em todos. Comecei a escolher melhor os eventos aos quais iria, as reuniões presenciais que realmente precisavam acontecer, as pessoas que eu queria encontrar e as oportunidades que mereciam espaço na agenda.
Aprendi que presença também é uma decisão estratégica. Isso é especialmente importante quando falamos de negócios. Se você trabalha com São Paulo morando em Florianópolis, por exemplo, estar presencialmente na cidade de tempos em tempos pode fazer diferença.
Não significa que todo negócio precise de uma ponte aérea mensal. Mas existe uma dinâmica de relacionamento que, em determinados mercados, ainda acontece muito melhor quando você está fisicamente presente. Às vezes, até dizer: “eu estarei em São Paulo na próxima semana. Vamos tomar um café?” já muda a conversa.
Mas também trouxe comigo o que aprendi fora de São Paulo
Se São Paulo me ensinou profissionalização, organização, velocidade e seletividade, os outros mercados em que trabalhei também me ensinaram algo que considero igualmente importante: a dimensão humana das relações.
Em alguns contextos, a conexão é mais afetiva. Existe mais espaço para conversar antes de falar de negócio. Para conhecer a pessoa. Para construir confiança antes de discutir resultado.
E isso tem um valor enorme. Porque relacionamento comercial não é apenas sobre o resultado que uma pessoa pode gerar para você. É também sobre a relação que vocês constroem enquanto o resultado acontece.
Acredito muito na combinação dessas duas coisas: resultado + conexão. Ter processo, planejamento, documentação e profissionalização sem perder a capacidade de criar relações genuínas. Ser objetivo sem deixar de ser humano. Saber fazer negócio sem transformar toda relação em uma transação.
Talvez o Brasil seja grande justamente porque não funciona de um único jeito
São Paulo ainda carrega uma percepção muito forte de ser o lugar onde “o negócio acontece” e onde está boa parte do dinheiro e das grandes oportunidades do país. Essa percepção tem alguma razão histórica e econômica, mas pode se tornar limitada quando transforma o Brasil em uma única lógica.
Existem mercados bastante relevantes no Nordeste, no Sul, no Centro-Oeste e em diferentes regiões do país. Existem empresas excelentes fora dos grandes centros. Existem profissionais construindo negócios relevantes longe dos eixos mais óbvios.
E talvez uma das maiores vantagens que uma empresa ou profissional possa ter seja justamente saber circular entre esses diferentes Brasis.
São Paulo me ensinou a ser mais organizada, mais objetiva, mais seletiva e mais preparada para acompanhar um mercado extremamente dinâmico. Santa Catarina e outros lugares por onde passei me ensinaram a valorizar relações, proximidade, confiança e jogo de cintura.
Não quero escolher entre uma coisa e outra. Quero levar as duas comigo. Porque negócios precisam de resultado, mas também precisam de relacionamento. Precisam de velocidade, mas também de estratégia. Precisam de processos, mas não podem perder as pessoas de vista.
E talvez seja justamente essa a grande riqueza de transitar por mercados diferentes: você percebe que existem muitos Brasis dentro de um Brasil só e que todos eles têm alguma coisa para ensinar.
E, sim, depois de tudo isso, tem uma coisa de São Paulo que eu definitivamente não trouxe comigo: a saudade do trânsito. 😅