Por Julian Tonioli, sócio-fundador e CEO da Auddas.
“Por aqui sempre funcionou desse jeito”. “Sempre fizemos assim”. “Esse é o melhor jeito de fazer”. Frases como essas aparecem com frequência dentro das empresas e, muitas vezes, sustentam processos, decisões e formas de trabalhar que deram certo durante anos. O problema começa quando passam a impedir uma revisão necessária.
Negócios mudam e o contexto muda, as circunstâncias mudam e, quando isso acontece, a forma de operar também precisa ser revista, inclusive naquilo que está funcionando bem. Mudar não significa admitir que uma
decisão anterior estava errada. Significa reconhecer que uma solução funcionou em determinado momento, mas já não é a mais adequada, ou que surgiram novas ferramentas, condições e alternativas.
Por isso, discordo da ideia de que em time que está ganhando não se mexe. Muitas vezes, é justamente quando as coisas estão funcionando que existe espaço para ajustar processos, equipe, ferramentas e modelos
de execução.
A tecnologia é um bom exemplo. Com o avanço da inteligência artificial e de outras soluções, empresas precisam revisar a forma como executam atividades que durante anos pareceram consolidadas. Essa revisão não deveria se limitar a automatizar o que já existe. Automatizar é fazer a mesma coisa de forma mais rápida. Modernizar é
usar novas capacidades para fazer aquilo de outra maneira, com mais eficiência na relação entre o que entra no processo e o que sai dele.
A mesma lógica vale para preço e margem. Muitas companhias trabalham com regras fixas durante anos. O preço é calculado a partir do custo, de determinado markup e de uma margem previamente estabelecida. O modelo funciona, mas nem sempre entrega o melhor resultado.
Uma empresa pode ter produtos e serviços com margens diferentes. Em algumas situações, faz sentido fechar um negócio com margem menor se aquele projeto gerar receita adicional sobre uma estrutura de custos
fixos que já está montada. A análise precisa considerar o impacto no resultado total, e não apenas uma regra fixa de margem.
Isso também vale para sistemas. No nosso dia a dia, por exemplo, usamos durante anos um ERP que atendia às necessidades da companhia. Mais recentemente, decidimos fazer uma mudança. Não porque o sistema tivesse deixado de funcionar, mas porque passamos a olhar para aquilo de que a empresa vai precisar nos próximos cinco ou dez anos. Esse tipo de decisão exige olhar além da necessidade imediata, porque uma ferramenta que funciona hoje pode deixar de ser a mais adequada para o futuro que a companhia pretende construir.
Nos últimos meses, também temos revisitado nossa própria oferta, posicionamento e modelo de entrega. Isso não significa que o que fazíamos estivesse errado. Significa que o mercado mudou, surgiram novas soluções e as expectativas dos clientes também mudaram. Essa revisão tem impacto na oferta, nos métodos de entrega e até na distribuição das pessoas dentro da organização. É parte de um processo de adaptação que precisa acontecer ao longo do tempo.
Existe um conceito da teoria evolucionária chamado Red Queen Effect, ou efeito da Rainha Vermelha, que ajuda a entender essa dinâmica. Em linhas gerais, ele mostra que as espécies precisam evoluir continuamente não apenas para avançar, mas também para manter sua posição diante da evolução das demais.
No mundo dos negócios, a lógica é parecida. Enquanto uma empresa muda sua estratégia, seus processos e seu modelo de execução, os concorrentes também estão fazendo movimentos. Existe, portanto, um nível de evolução necessário apenas para que a companhia não fique para trás.
Esse efeito nem sempre aparece no curto prazo. Normalmente, não existe uma única transformação capaz de alterar completamente a posição de uma empresa. O que existe é uma sequência de mudanças, ajustes e evoluções que, observadas ao longo dos anos, alteram sua capacidade competitiva.
Empresas que fazem isso bem acompanham seus processos, seus produtos, seus serviços e os fatores externos que interferem no negócio. A partir daí, usam novas competências, ferramentas e tecnologias para promover ajustes contínuos.
A história empresarial mostra exemplos claros. Kodak e Fujifilm atuavam no mercado de filmes fotográficos. Com a transformação desse mercado, a Fujifilm usou competências desenvolvidas na área química e de materiais para avançar para outras aplicações, incluindo áreas médicas e cosméticas. A transição exigiu redução de custos, investimentos e aquisições. Décadas depois, o negócio de fotografia passou a representar apenas uma pequena parcela do faturamento da companhia.
Isso não significa que todas as empresas precisem fazer grandes mudanças ou promover transformações radicais. Grandes movimentos envolvem riscos e fazem sentido em situações específicas. Na maior parte do tempo, o mais importante é manter uma capacidade constante de revisão, olhando para processos, ofertas, soluções, equipe, tecnologia e modelo de execução para identificar onde existem oportunidades de ajuste.
O “sempre foi assim” também aparece nos números, na dificuldade de ganhar escala, de aumentar a eficiência das despesas fixas, de capturar ganhos adicionais de margem ou de fazer com que novos produtos representem uma parcela maior da receita. A empresa continua crescendo e, ainda assim, apresenta limitações quando se analisa com mais profundidade a qualidade da receita, a qualidade da margem, a renovação do portfólio e a capacidade de aumentar a eficiência da operação.
Há ainda uma diferença importante entre tradição e resistência à mudança. Manter princípios, cultura, valores e diferenciais faz parte da identidade de uma empresa. O problema surge quando o argumento de que algo sempre funcionou passa a ser usado para impedir qualquer evolução de produto, processo ou modelo de negócio.
Assim, vale olhar para dentro da empresa e identificar o que não é revisado há dois ou três anos apenas porque sempre foi feito daquele jeito ou porque ainda está funcionando. O problema não está em ter tomado uma boa decisão no passado, mas em assumir que isso dispensa a empresa de verificar se ela continua funcionando no presente e se ainda fará sentido no futuro.