Como não cair na cilada das respostas imediatas

Recentemente, mandei um email para a jornalista e escritora americana Anne Helen Petersen, autora de Não Aguento Mais Não Aguentar Mais (HarperCollins Brasil) para solicitar uma entrevista.

Ao chegar a resposta, notei um recado que saltou aos meus olhos. Logo abaixo de sua assinatura, havia a mensagem: Meu dia de trabalho pode não ser o seu dia de trabalho. Não se sinta obrigado a responder a este e-mail fora do seu horário normal de expediente

Em um mundo hiperconectado, no qual as informações e mensagens chegam de todos os lugares (email, telefone, whatsapp, aplicativos corporativos de comunicação), e com o escritório passando a ser em casa, muita gente começou a achar que responder imediatamente, e a qualquer hora e dia.

“Mas é meu chefe, preciso retornar”, “É meu cliente e ele pode precisar de algo”. Isso, muitas vezes, tarde da noite, ou até, aos finais de semana. Mas esse imediatismo pode fazer sua cabeça pifar e seu foco e sua produtividade irem por água abaixo.

Segundo Izabella Camargo, especialista em saúde mental e autora de Dá um Tempo: como encontrar limites num mundo sem limites (Principium), os acessos sem limites fazem com que a gente perca a referência do que é manhã, tarde e noite, e do que é trabalho e vida pessoal. Aí, quando você percebe, está em todos os horários e dias respondendo demandas.

Não há cérebro, nem raciocínio que funcione bem com muitas janelas abertas e interrupções. Isso faz com que você fique mais estressado, cansado e menos criativo, afetando diretamente sua produtividade e saúde”, diz.

Ela ressalta que escuta muitas pessoas hoje reclamando do cansaço e, a maior parte delas, vai com o celular para todos os lugares, sem dar espaço e pausas para o cérebro descansar.

Um estudo feito pela professora Gloria Mark, do Departamento de Informática da Universidade da Califórnia, em Irvine, as pessoas trocam de atividade, em média, a cada três minutos. Segundo ela, isso torna impossível o trabalho profundo, ou seja, a concentração em uma tarefa.

Ela exemplifica com a elaboração de um artigo. Para escrever algo com mais profundidade, a pessoa leva em torno de uma hora para começar a pensar com criatividade. Assim, se trocar de tarefa a cada dez minutos, por exemplo, não será capaz de pensar com a concentração que a atividade exige.

Isso porque, você vai precisar mudar completamente seu pensamento e voltar à atividade principal será mais difícil. Isso quer dizer que se você parar pra responder todas as mensagens que “pulam” em seu WhatsApp durante o dia, adeus produtividade. E, claro, bem-estar emocional. A ansiedade acelera mesmo.

IMPOR LIMITES É O PRIMEIRO PASSO

Mas como encontrar a medida certa? Izabella sugere estabelecer contratos de tempo, ou seja, definir horários, regras e critérios de urgência e prioridades, senão tudo se torna urgência.

“Nos sentimos obrigados a responder quando não definimos nossos limites, isso significa horário e tempo de resposta”, diz.

Ela sugere começar fazendo uma relação de pessoas que estão em sua lista de prioridade e para as quais as respostas serão mais rápidas. Depois disso, estabeleça seu horário de trabalho e, se tiver uma equipe, informe a todos. É recomendado, também, deixar em seus status uma mensagem com essa informação.

Você sabe, por exemplo, que um banco funciona das 10h às 16h e, se mandar mensagem fora desse horário, não terá resposta. Certo? O mesmo vale para o seu trabalho.

“O que acontece é que antes saímos do trabalho. Hoje, com o home office, se não colocarmos limites, o trabalho não termina”, complementa. 

Segundo ela, estamos no início de uma nova era de segurança psicológica, e é essencial que as empresas trabalhem para oferecer ambientes saudáveis e de respeito. Nesse sentido, ela ressalta que o papel dos líderes é essencial.

“Quando falamos em educação, falamos em repetição, treino, experiência e exemplo. E o líder é o exemplo. Tem que partir dele algumas regras, como quais os critérios de urgência, até quando as mensagens podem ser enviadas, além de estabelecer os momentos sem interrupção”, afirma.

A Zé Delivery, por exemplo, aposta na agenda aberta para que as pessoas respeitem os horários dos colegas de trabalho. Todos sabem, por exemplo, que em determinado horário alguém está fazendo yoga ou tem uma consulta de rotina. Têm pessoas que colocam, até, a hora de dar banho no filho.

O importante é estabelecer seus limites e fazer combinados, como avisar o time que em determinado momento estará offline e, se for urgente, o melhor é ligar. 

DIREITO À DESCONEXÃO: JÁ OUVIU FALAR?

Em 2016, antes mesmo da pandemia que fez com que muitas pessoas trabalhassem de casa, começou a vigorar na França uma lei que representa bem as transformações que a tecnologia trouxe para o mundo do trabalho: o direito à desconexão.

Segundo a legislação, empresas com mais de 50 empregados precisam criar acordos formais com a força de trabalho sobre o uso de meios eletrônicos, como e-mails e aplicativos de mensagens, fora do horário de expediente. No ano passado, foi a vez de Portugal implementar uma lei nesse sentido.

Aqui no Brasil, segundo Thassya Prado, advogada especialista em assédio moral e burnout, tramita no Senado um projeto do Fabiano Contarato, que pretende regulamentar a questão do direito à conexão.

“Em nosso país, a Lei é mais do que necessária, já que a cada dia os índices de ausência de desconexão, esgotamento profissional e adoecimento aumentam”, diz.

Eu já estou estabelecendo meus contratos de tempo. E você?

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