Governo é mato alto: os desafios de implementar novas tecnologias no setor público

Implementar projetos de inovação no setor público é uma missão para desbravadores. Costumo dizer que é mato alto porque hoje existe muita demanda de tecnologia e por um motivo simples: as empresas e pessoas não só precisam, mas desejam interagir digitalmente com o governo. 

Em Santa Catarina, é possível abrir uma empresa em menos de 24 horas pela internet em Itajaí. E em Florianópolis, a prefeitura emite um alvará para construção em 5 minutos, ou menos, se assim o responsável pela obra desejar.

O tempo de abertura de uma empresa ou de emissão de um alvará traduz o grau de burocracia existente nos municípios ou de que forma vem sendo combatida por gestores públicos que, cada vez mais, têm colhido os louros do efeito cascata do digital no desenvolvimento econômico das cidades.

No Paraná, o atendimento digital para emissão de alvarás de construção impulsionou os indicadores municipais da cidade de Cascavel. O número de empregos aumentou mais de 800%, saltando de 820 para 7.533 no ano passado, comparado com 2017, último ano de atendimento físico na Secretaria de Planejamento. Só na área da construção, a oferta de trabalho quase dobrou no mesmo período. 

Esses e outros resultados que tenho comemorado pelo Brasil são conquistas de um grupo visionário – porém ainda restrito, de gestores que enxergam a tecnologia como o futuro dos serviços públicos e, com base nessa premissa, estão deixando um novo legado para a população.  

Mas apesar de ser um cenário promissor, o setor com a maior superfície de contato de todas – não raro – opera tecnologia das décadas de 80 e 90. Essa dicotomia entre a oferta no privado para o governo e a demanda pujante do setor público é onde a gente opera.

Subimos a barra tecnológica das prefeituras implementando soluções tecnológicas para transformar processos físicos e manuais em fluxos digitais automatizados para acelerar o atendimento, eliminando o papel do atendimento e reduzindo drasticamente os gastos públicos. 

Na cidade mineira de Patos de Minas foram economizados cerca de R$ 13 milhões em apenas três meses de atendimento da prefeitura digital. E há três anos consecutivos o Aprova Digital, startup que fundei em 2017, triplica o faturamento anual, impondo nosso ritmo no mercado govtech brasileiro. 

Preciso lembrar que segundo o relatório do hub de inovação BrazilLab, em parceria com o CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina), além das 80 govtechs vendendo recorrentemente para o setor público em 2019, mais de 1.500 tinham potencial de oferecer as suas soluções para o governo.

No mundo de hoje, a tecnologia é o governo, considerado o maior consumidor de software do mundo. Estamos falando de uma indústria que deve atingir um valuation de um trilhão de dólares até 2025, de acordo com o GovTech UK Market Report, abaixo apenas do gigante B2C.

Essa é a grande oportunidade para as govtechs de toda América Latina e a pandemia reconfigurou essa perspectiva, aumentando o volume de tecnologia em todas as esferas, incluindo a pública, primeiro ponto de conexão com o cidadão. 

Em Varginha (MG) a construção civil foi um pilar decisivo na geração de empregos durante a pandemia. A prefeitura digitalizou os alvarás para reduzir o prazo de liberação das obras. Com isso, o tempo para primeira análise de um projeto passou de 40 para apenas um dia, tudo online e sem papel. 

É inegável que a habilidade e o desejo de explorar tecnologias, sabendo o que ela pode fazer para simplificar processos ou facilitar a vida, está cada vez mais evidente na pauta do brasileiro, esteja ele dentro ou fora do balcão de atendimento. 

Nessa missão ainda cabe às govtechs derrubar algumas barreiras culturais e batalhar por um ambiente jurídico cada vez mais seguro e favorável para promover a inovação em larga escala. Eventualmente a oferta vai encontrar essa demanda, mas por enquanto seguimos bravamente desbravando esse mato alto. 

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