Existe uma armadilha em que muitas empresas caem quando decidem avançar na transformação digital. Não se trata de falta de orçamento nem de talento na equipe, mas do excesso e da adoção desenfreada de ferramentas em camadas, uma sobre a outra, cada uma prometendo resolver um problema específico, o que, no conjunto, cria um labirinto que ninguém consegue operar com consistência.
Com o avanço da inteligência artificial, esse movimento se intensificou e a oferta de soluções cresceu de forma exponencial, junto com a ansiedade de não ficar para trás, levando empresas de todos os portes a testar de tudo um pouco em busca de uma solução que funcione como o graal da operação. O resultado, na maioria dos casos, é um time sobrecarregado, dados espalhados em sistemas que não conversam entre si e uma sensação constante de que a transformação idealizada nunca chega de verdade.
Atuando próximo a esse desafio nos clientes, o que vejo é que o problema raramente está na qualidade das ferramentas escolhidas, mas na ordem em que as decisões são tomadas, já que tecnologia sem cultura e sem processos bem definidos não transforma nada, apenas digitaliza o caos que já existia antes.
A transformação digital que gera resultado começa por dentro, mapeando como o trabalho realmente acontece, onde estão os gargalos, quais informações são necessárias para cada decisão e quem precisa de acesso ao quê. É um trabalho menos interessante do que testar uma nova plataforma, mas primordial e que cria as condições para que qualquer solução tecnológica funcione de verdade, porque sem essa base o melhor software do mercado vira mais uma ferramenta subutilizada no stack.
Somente depois de construir essa fundação, com processos claros e uma cultura que saiba para onde está indo, que faz sentido escolher as soluções tecnológicas que vão sustentar a operação, e nesse momento a escolha fica muito mais objetiva porque a empresa já sabe o que precisa resolver e não está mais comprando esperança. A sugestão/provocação aqui é minimalista: qual o mínimo de ferramentas que pode tornar a minha experiência de trabalho mais fluída? Hoje existem uma série de ferramentas que permitem basicamente executar boa parte dos processos e demandas organizacionais, com uso massivo de IA via prompts e agentes que podem maximizar o dia-a-dia de processos e pessoas.
O paradoxo é que fazer menos costuma ser mais difícil do que fazer mais, porque requer clareza estratégica, disposição para desativar o que não funciona e uma liderança que consiga resistir à pressão de adotar a novidade. Porém, são justamente essas empresas, as que optaram por construir antes de acumular, que chegam a uma operação realmente preparada para incorporar inteligência artificial de forma sustentável e colher o retorno que tanto se promete dessa tecnologia.