Segundo levantamento da RGF com base em dados da Receita Federal, o Brasil bateu recorde de empresas em recuperação judicial em 2025, encerrando o ano com 5.680 negócios nessa situação, um crescimento de 24,3% em relação ao ano anterior. Quando vamos discutir a motivação disso, ficamos presos aos juros altos, no câmbio e na Selic, que realmente são fatores reais, mas sempre esquecemos um fator importante e decisivo que vem antes de tudo isso.
A maior parte das empresas que entra em recuperação não é pega de surpresa. Em geral, esse cenário é resultado de anos de decisões tomadas sem a devida visibilidade financeira, sem processos formalizados e sem ninguém com autoridade para indicar que o caminho estava errado. Tudo isso reflete a ausência de governança.
Governança não é uma mera burocracia, ou simplesmente a presença de um conselho. Ela representa a capacidade de uma empresa tomar decisões baseadas em informação confiável, distribuir responsabilidades, delimitar processos de gestão entre áreas com clareza e corrigir rotas antes que o erro se torne crise. Quando isso falta, temos métricas que não refletem a operação de forma assertiva, gestores que decidem com base na intuição porque os dados disponíveis não são confiáveis e outras “pequenas” ações no cotidiano da empresa que a mantém funcionando por um certo tempo, mas sem ninguém saber onde está pisando.
Com base na minha experiência, o que a recuperação expõe, na maioria dos casos, é uma empresa que não tinha instrumentos para se antecipar. E quando o processo começa, a governança precária fica ainda mais evidente, porque é exatamente nesse momento que a organização precisa apresentar um plano plausível, negociar com credores e executar mudanças sob pressão. Quem não tem processos organizados, informação centralizada e gestão profissionalizada enfrenta a reestruturação sem as condições mínimas para que ela funcione.
Vale lembrar que cumprir um plano de recuperação – judicial ou não – exige gestão. Não a gestão de crise, mas a gestão de rotina que a empresa nunca teve, com processos claros, dados confiáveis e responsabilidades bem definidas. Sem isso, o plano vai perdendo aderência à medida que a pressão diminui, e o negócio voltar a operar como era antes.
É claro que nesse debate cabe também considerar o ambiente de negócios no Brasil. Juros altos, crédito restrito e instabilidade cambial são obstáculos que afetam negócios de todos os portes. Mas empresas bem governadas têm capacidade de passar por cenários adversos com maior capacidade de resposta. Antes de apontarmos o cenário externo como único culpado, devemos entender se internamente, o negócio está sendo bem governado.