Economia SP - No maior evento de inovação de SP, as habilidades humanas ganharam o palco

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No maior evento de inovação de SP, as habilidades humanas ganharam o palco

Foto: divulgação
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Por Cris Moraes, fundadora da CM Comunicação e do POD Ser Pauta.

Enquanto robôs, automações, experiências imersivas e discussões sobre produtividade ocupavam os palcos, multidões paravam para ouvir reflexões sobre presença, criatividade, inteligência emocional e afeto.

Talvez a grande ironia do São Paulo Innovation Week tenha sido essa: em meio a tantos debates sobre inteligência artificial, eficiência e futuro do trabalho, o que mais mobilizava as pessoas eram justamente as conversas sobre humanidade.

Em alguns momentos, a experiência parecia menos sobre consumir conteúdo e mais sobre sobreviver ao excesso dele. Fazer uma curadoria do que assistir se tornou quase um exercício emocional. A vontade era entrar em uma palestra, sair na metade para acompanhar outra, circular pelos espaços e absorver tudo ao mesmo tempo. 

Era a personificação real da crise existencial de Tudo em Todo o Lugar ao Mesmo Tempo: uma tentativa desesperada de nos multiplicarmos para viver todas as vidas e acessar todas as realidades possíveis de uma só vez e ainda ter o medo de ficar de fora de algo (FOMO). 

E foi justamente nesse ambiente hiperestimulado que algo começou a ficar evidente para mim: as filas que dobravam corredores nem sempre buscavam discussões técnicas ou demonstrações de tecnologia. Muitas vezes, buscavam repertório emocional, criatividade, convivência e sentido.

Minha primeira experiência no evento já abriu essa porta de reflexão. Enquanto acompanhava outros palcos ligados a luxo, experiência e comunicação, consegui assistir o finalzinho da palestra de Marcelo Gleiser, “Mentes brilhantes não pensam igual: por que os limites da razão nos tornam mais humanos”, e depois segui para a conversa com Daniel Goleman, “Inteligência emocional: a habilidade que vai definir o futuro”, na Arena Mercado Livre, principal plenária do Pacaembu. Ver e ouvir alguém que eu li e reli tantas páginas, foi mágico e muito especial. 

Hoje percebo que talvez essas duas palestras tenham criado o fio invisível que conectou tudo o que mais me marcou nos três dias de evento.

Em um ambiente dominado por debates sobre automação, performance e inteligência artificial, Gleiser e Goleman conduziram reflexões sobre consciência, limites da racionalidade, diversidade de pensamento e inteligência emocional — não apenas nas relações pessoais, mas também no trabalho, na liderança e na forma como lidamos com um cotidiano cada vez mais acelerado.

No final da palestra, Gleiser voltou ao palco e conduziu uma meditação guiada. A plenária estava lotada. Pessoas lotaram a plenária e muitas sentadas no chão,  como eu, em silêncio. Em determinado momento, todos deram as mãos enquanto ele conduzia a experiência: imaginar um campo verde, sentir o caminhar descalço e depois a sensação de se transformar em uma abelha dentro de uma flor, se transformando em apenas um ser. “Isso máquina ou IA nenhuma no mundo terá a capacidade de fazer”, ressaltou. 

Pode parecer simples. Mas talvez tenha sido uma das cenas mais simbólicas de todo o evento para mim. A sensação, a empatia e a capacidade de se colocar no lugar do outro. 

A partir dali, comecei a perceber um padrão curioso. As palestras que mais me impactaram não foram necessariamente as mais futuristas. Foram justamente aquelas que falavam sobre comportamento, memória, criatividade, relações e atenção.

Uma das mais marcantes foi “Inovação pelo afeto: que ninguém seja invisível ao seu lado”, com Fabrício Carpinejar, no teatro da FAAP. A fila para entrar já mostrava o interesse do público. Mesmo com tantos palcos acontecendo ao mesmo tempo, aquela era uma palestra que eu sabia que não queria perder.

Em meio a reflexões sobre distração constante e relações líquidas, Carpinejar trouxe provocações que ficaram ecoando na minha cabeça nos dias seguintes. “A felicidade é um filme de baixo orçamento”, disse em determinado momento. Em outro, lembrou que deixamos o prato esfriar para tirar uma fotografia.

Mais do que frases de efeito, eram reflexões sobre atenção. Sobre como os momentos mais importantes da vida raramente acontecem quando estamos tentando registrá-los o tempo inteiro.

Saí daquela palestra pensando que talvez a hiperconexão tenha nos deixado cada vez mais visíveis online e, ao mesmo tempo, mais distraídos da experiência real.

No último dia do evento, decidi permanecer mais tempo na plenária para realmente mergulhar no conteúdo. Depois de dois dias circulando entre palcos, encontrando clientes, jornalistas e profissionais da área, quis observar também o comportamento do público diante das discussões principais do evento. E uma das coisas que mais me chamou atenção foi ver a plenária lotada para ouvir Spike Jonze.

Em um evento tomado por debates sobre inteligência artificial, milhares de pessoas pararam para ouvir um cineasta falar sobre criatividade. Talvez porque exista uma percepção coletiva de que imaginação, sensibilidade e repertório não serão substituídos tão facilmente.

Outra palestra que reforçou muito essa sensação foi “Além da harmonia: transforme o conflito de equipe em uma vantagem”, com Amy Gallo. Ao falar sobre liderança e comunicação, ela trouxe um ponto importante: empresas podem investir em produtividade, automação e tecnologia, mas continuarão precisando lidar com algo inevitavelmente complexo — pessoas.

Um dos exemplos citados por Amy foi a ineficácia do chamado “feedback sanduíche”, aquela técnica de começar com algo positivo, inserir a crítica e terminar novamente com um elogio. Segundo ela, pessoas mais sensíveis tendem a focar apenas na parte negativa, enquanto perfis mais arrogantes absorvem apenas o elogio. O resultado costuma ser uma conversa superficial e pouco efetiva.

Em tempos de comunicação acelerada, talvez uma das habilidades mais difíceis seja justamente sustentar conversas honestas, difíceis e maduras.

Amy também aborda esse tema em um artigo recente da Harvard Business Review sobre como a inteligência artificial pode prejudicar relações de trabalho quando substitui interações humanas importantes. Existe algo muito simbólico nisso: quanto mais eficientes nos tornamos tecnologicamente, mais necessário parece proteger aquilo que sustenta confiança, vínculo e capacidade de convivência.

Durante os três dias de evento, outra coisa também me chamou atenção fora dos palcos: a quantidade de pessoas circulando, conversando, trocando ideias e criando conexões. Entre uma palestra e outra, os corredores também viravam espaços de encontro e troca de repertório.

Talvez isso também diga muito sobre o momento que estamos vivendo: eventos presenciais continuam mobilizando milhares de pessoas justamente pela possibilidade de experiência coletiva.

Saí do São Paulo Innovation Week com muitas ideias sobre inovação, negócios e tecnologia. Mas o que mais ficou não foi uma ferramenta nova ou uma previsão sobre inteligência artificial. Foi a percepção de que, em um mundo cada vez mais automatizado, capacidades antes tratadas como “soft skills” passaram a ocupar um espaço estratégico.

Portanto, talvez o verdadeiro desafio da era da inteligência artificial não seja criar máquinas cada vez mais humanas, mas sim impedir que nós mesmos nos tornemos automáticos.

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