Toda empresa brasileira de tecnologia que tenta fechar um contrato de grande porte esbarra, mais cedo ou mais tarde, na mesma barreira: a comprovação de segurança de dados. Apresentar o certificado ISO 27001, o relatório SOC 2 ou responder a um questionário complexo de centenas de linhas virou pré-requisito obrigatório antes mesmo de as negociações avançarem.
Para resolver essa exigência, o caminho quase automático nos últimos anos tem sido contratar plataformas americanas que dominam o mercado global de automação de compliance, como Vanta, Drata ou Secureframe. Elas funcionam bem, mas o problema aparece no custo e no fuso horário.
Os planos dessas empresas estrangeiras começam na faixa de US$ 15 mil por ano e podem chegar a US$ 100 mil para operações maiores. Além do preço em dólar e dos reajustes frequentes na renovação, o suporte técnico é feito por tickets em inglês, operando com várias horas de diferença e sem pleno domínio sobre as especificidades da LGPD, da ANPD ou de auditorias conduzidas em português. Para o mercado mid-market nacional, o custo da conformidade vira um gargalo antes de se tornar uma solução.
Foi exatamente de olho nessa lacuna que a Imara, sediada na região de Campinas (SP), estruturou o seu negócio.
A tese: o mesmo trabalho, em reais e em português
A Imara é uma empresa brasileira de SaaS B2B cujo produto central é o Imara Trust, uma plataforma de automação de compliance. A proposta é a mesma das gigantes americanas: conectar frameworks de segurança aos controles, evidências, riscos e políticas reais da empresa, automatizar a coleta de provas, monitorar desvios e organizar tudo para o dia da auditoria. A diferença está em duas variáveis que, no Brasil, pesam mais do que a lista de funcionalidades: o preço e o idioma do suporte.
Os planos do Imara Trust partem de R$ 1.490 por mês (Starter), passam por R$ 2.990 (Growth, o mais procurado) e chegam a R$ 4.990 (Scale, com frameworks ilimitados). Por ser uma solução nacional, não há exposição cambial, taxas de IOF ou barreiras de idioma. A cobrança é feita localmente e o atendimento ocorre em tempo real. Para a maior parte do mercado mid-market brasileiro, a diferença em relação às plataformas estrangeiras pode significar a não adoção e desacelerar o processo de adequação as normas.
“O compliance deixou de ser um luxo de empresa grande e virou condição para crescer, fechar contrato enterprise e entrar em cadeia de fornecedores”, afirma Anderson Torres, fundador e diretor da Imara. “Mas a forma como esse mercado foi construído empurrava o cliente brasileiro para uma solução cara, em dólar, com suporte que não fala a língua dele nem entende a realidade regulatória daqui. A gente achou que dava para fazer diferente.”
A aposta tem lastro na trajetória de quem a faz. Torres acumula mais de 20 anos em segurança da informação, com passagens em posições de liderança e CISO por empresas como idwall, Wildlife Studios, Pluxee e Nagra, e mestrado em Engenharia Elétrica pela PUC-Campinas. Essa bagagem prática na condução de certificações ISO desenhou a base metodológica do software.
O que a plataforma resolve na prática
O Imara Trust cobre os frameworks que o mercado brasileiro mais demanda: ISO 27001, SOC 2, LGPD, PCI DSS, além de normas mais recentes como a ISO 42001 (gestão de inteligência artificial) e a ISO 27701 (privacidade). Cada framework chega com controles pré-mapeados, integrações com AWS, Azure, Google Cloud e GitHub para coletar evidências automaticamente, e um Trust Center público que permite à empresa mostrar sua postura de segurança a clientes e auditores sem expor dados sensíveis.
Para acelerar as entregas, o sistema utiliza inteligência artificial para ler documentos e políticas enviados, identificar lacunas, atribui uma pontuação de confiança e explica em português claro quais ajustes são necessários. Segundo a startup, essa centralização reduz o tempo de preparação para auditorias entre 30% e 50%, encurtando um processo de uma certificação ISO27001 que tradicionalmente leva um ano para uma janela média de seis a nove meses.
Validação de mercado e próximos passos
A Imara opera em estágio inicial sob o modelo bootstrapped (financiada com recursos próprios). Atualmente, a plataforma conta com alguns clientes ativos, incluindo fintechs e empresas de SaaS de saúde, e tem como meta declarada atingir 40 contratos fechados até julho.
O objetivo ousado serve como um teste de hipótese para a startup: comprovar a existência de uma demanda reprimida e sensível a preço no mercado mid-market brasileiro.
A leitura faz sentido no cenário macroeconômico atual. O Brasil abriga milhares de empresas de tecnologia que precisam elevar seus níveis de governança para vender para corporações tradicionais ou iniciar processos de expansão internacional. Até então, a única porta de entrada viável para essa automação dependia de fornecedores estrangeiros.
O amadurecimento do setor nacional
O surgimento de soluções locais de automação reflete o amadurecimento técnico do mercado brasileiro. Durante anos, a conformidade de segurança foi tratada como um projeto pontual, dependente de planilhas manuais e consultorias caras que geravam apenas um certificado estático. O mercado internacional já consolidou a transição para plataformas contínuas, onde a segurança é monitorada em tempo real, e o ecossistema brasileiro começa a seguir a mesma tendência.
A questão central não é se as empresas brasileiras vão adotar sistemas automatizados de compliance, pois essa demanda já se consolidou. A resposta que os próximos meses trarão é se o mercado nacional prefere continuar pagando em dólar por soluções externas ou se há espaço definitivo para plataformas locais focadas na realidade do país.