Economia SP - ODS 13 na prática: o que significa liderar uma empresa em tempos de emergência climática

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ODS 13 na prática: o que significa liderar uma empresa em tempos de emergência climática

Foto: divulgação
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Durante muito tempo, a mudança climática foi tratada como um tema de relatório de sustentabilidade: algo para ser mencionado, medido e arquivado uma vez por ano. Esse cenário mudou. Hoje, a ODS 13 – Ação contra a Mudança Global do Clima deixou de ser pauta de nicho e passou a ser também uma questão de resiliência e continuidade para negócios de qualquer porte.

Os números mostram que esse movimento deixou de ser apenas percepção e virou dado concreto. Uma análise da plataforma de inteligência ESG C-More, baseada em uma base proprietária com mais de 10 mil empresas, mostrou que 35% dos ativos físicos de grandes portfólios empresariais brasileiros já apresentam exposição elevada a eventos climáticos extremos, como enchentes, secas, ondas de calor e tempestades severas.

No agronegócio, setor especialmente exposto às condições climáticas, uma pesquisa da EY revelou que 79% das lideranças consultadas classificam os impactos das mudanças climáticas como altos ou muito altos para seus negócios. O estudo também aponta dificuldades das empresas em antecipar eventos extremos, como secas, enchentes e geadas, com reflexos sobre safras, logística, crédito, seguros e acesso a mercados.

A dimensão econômica desse risco também é expressiva. Segundo a FGV, entre 2013 e 2023, 94% do território brasileiro enfrentou algum desastre provocado por evento climático extremo. Entre 2020 e 2022, esses eventos provocaram pelo menos R$ 184 bilhões em prejuízos, com grande parte das perdas recaindo sobre o setor privado.

A regulação também reflete esse movimento, ainda que de forma mais instável do que se imaginava. A Resolução CVM 193 chegou a prever a obrigatoriedade, a partir de 2026, da divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade por companhias abertas, seguindo os padrões do CBPS e do ISSB, alinhados às normas internacionais IFRS S1 e S2. Em maio deste ano, porém, a CVM publicou a Resolução 244, que revogou essa obrigatoriedade e estabeleceu um regime voluntário. A partir de 2027, as companhias abertas que optarem por não arquivar o relatório de sustentabilidade deverão justificar essa decisão por meio de comunicado ao mercado. A regra mudou, mas o diagnóstico de fundo permanece: riscos climáticos podem afetar ativos, operações, cadeias de valor, resultados e decisões de investimento. A norma pode mudar; a materialidade do risco climático não desaparece.

E o momento não poderia ser mais oportuno para essa reflexão. Em junho de 2026, um boletim conjunto de INPE, INMET, ANA, CEMADEN, Serviço Geológico do Brasil e Defesa Civil confirmou a configuração do El Niño. As projeções indicam alta probabilidade de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027 e elevada possibilidade de um episódio muito forte entre a primavera e o verão de 2026. A NOAA, por meio de seu Climate Prediction Center, estima em 81% a probabilidade de um El Niño muito forte no trimestre outubro-novembro-dezembro de 2026.

Para o Brasil, os impactos esperados variam conforme a região. O CEMADEN aponta maior risco de chuvas extremas, deslizamentos e enchentes no Sul; agravamento da seca e maior risco de incêndios no Norte e Nordeste; e maior frequência de ondas de calor e baixa umidade na região central do país. Não é um evento distante ou hipotético. O fenômeno já foi confirmado e suas possíveis consequências para diferentes regiões do país estão sendo monitoradas.

Empresas que dependem de matéria-prima natural, de cadeias logísticas previsíveis ou de condições climáticas estáveis para operar já sentem essa mudança na prática: safras que não se comportam como antes, eventos extremos que interrompem operações e custos de adaptação que entram no orçamento sem aviso prévio. A pergunta não é mais se o clima vai afetar o seu negócio. É quando, de que maneira e o quanto sua empresa está preparada.

O que 17 anos de Papel Semente me ensinaram sobre isso

Na Papel Semente, lidamos com um insumo particularmente sensível ao clima: sementes vivas, que dependem de condições específicas de temperatura e umidade para manter sua viabilidade germinativa. Isso nos obrigou, cedo, a pensar em adaptação climática não como discurso, mas como parte operacional do negócio. Além disso, nossa fábrica está localizada em uma área sujeita a risco de enchentes. Isso faz com que a discussão sobre adaptação deixe de ser uma abstração e passe a fazer parte das decisões concretas do dia a dia.

Recentemente, aprofundei esse olhar ao concluir a formação EPC Adapta – Empresas pelo Clima, da FGV, voltada ao desenvolvimento de estratégias empresariais de adaptação à mudança do clima. O processo reforçou algo que já intuíamos: adaptação não é um plano de contingência para o pior cenário. É um exercício contínuo de entender onde a operação é vulnerável e agir antes que a vulnerabilidade vire prejuízo. Essa visão está alinhada à própria abordagem do FGVces, que trata a adaptação como uma agenda estratégica capaz de reduzir riscos e vulnerabilidades e fortalecer a capacidade adaptativa das empresas diante de eventos climáticos extremos.

Na prática, isso se traduz em decisões concretas: como armazenamos e monitoramos as sementes; como estruturamos nosso ciclo produtivo considerando variações sazonais cada vez menos previsíveis; como entendemos a infraestrutura e os riscos do nosso território; e como documentamos esse conhecimento para que ele não dependa de uma única pessoa dentro da empresa. Como sempre costumo citar, nunca escolhemos o lucro sobre o propósito. Por isso, quando falamos em adaptação climática, o ponto de partida é sempre a mesma pergunta: o que essa mudança protege, além do resultado financeiro?

Por onde começar

Não é preciso ser uma empresa de grande porte ou ter uma área de sustentabilidade estruturada para dar os primeiros passos na ODS 13. Algumas ações são acessíveis a negócios de qualquer tamanho.

Mapeie os pontos mais sensíveis da sua operação. Identifique onde o clima pode interromper ou encarecer o negócio: matéria-prima, logística, infraestrutura física, energia, água, fornecedores ou mesmo pessoas. Muitas vezes essa vulnerabilidade é conhecida intuitivamente, mas nunca foi formalmente reconhecida.

Transforme conhecimento tácito em processo documentado. Se a resposta a uma crise climática depende da experiência de uma pessoa específica, sua empresa tem um risco silencioso. Documentar procedimentos e responsabilidades também é uma forma de construir resiliência.

Trate adaptação como investimento, não como custo evitável. Prevenir uma interrupção, proteger um estoque, diversificar fornecedores, melhorar uma infraestrutura ou criar protocolos para eventos extremos pode parecer uma despesa hoje. Mas o custo da inação pode ser muito maior amanhã.

Integre o clima à tomada de decisão. Adaptação não deve ficar restrita à área de sustentabilidade. Precisa chegar às operações, compras, finanças, logística, gestão de pessoas e estratégia. Afinal, risco climático é risco empresarial.

Para refletir: a ODS 13 não pergunta apenas se sua empresa reduz emissões. Ela também pergunta se sua empresa está preparada para operar em um mundo que já mudou. Na sua operação, qual é o ponto mais vulnerável ao clima? E o que você tem feito para protegê-lo antes que ele vire uma crise?

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Fundadora e CEO da Papel Semente, palestrante e mentora de lideranças que buscam transformar impacto em estratégia de negócio.

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