Quando a ONU lançou os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável em 2015, 2030 parecia distante o suficiente para ser tratado com aquela mistura de intenção e procrastinação que o mundo corporativo conhece bem. Pois bem: faltam menos de cinco anos.
E o ODS 2 Fome Zero e Agricultura Sustentável, que trata de acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar, melhorar a nutrição e promover a agricultura sustentável, é um dos que mais nos fazem pensar sobre onde realmente estamos na fila.
Não por acaso. O Brasil é, simultaneamente, um dos maiores produtores de alimentos do planeta e um país onde milhões de pessoas ainda enfrentam insegurança alimentar. Essa contradição não é um acidente geográfico. É o resultado de escolhas de modelo produtivo, de distribuição, de política e, sim, de modelo de negócio.
E é aqui que a conversa deixa de ser só dos governos.
O que o mercado está vendo que muita empresa ainda não viu
A segurança alimentar entrou definitivamente na agenda ESG. Investidores institucionais passaram a avaliar como empresas de todos os setores, não apenas do agronegócio, impactam a cadeia alimentar: nos insumos que consomem, nos resíduos que geram, nas comunidades que integram sua cadeia produtiva.
A agricultura sustentável, que é a segunda metade do ODS 2, também ganhou peso nos critérios de auditoria de Escopo 3. Empresas que compram de fornecedores que praticam monocultura intensiva, que degradam solo ou que dependem de agroquímicos pesados estão carregando um risco reputacional e regulatório crescente. O mercado europeu já sinaliza isso com legislação. O mercado americano está no mesmo caminho. E o Brasil, como presidência da COP até novembro deste ano, não vai escapar da conversa.
O que 17 anos me ensinaram sobre isso
A Papel Semente não é uma empresa do setor alimentar. Mas o ODS 2 vive dentro do nosso produto de uma forma que me orgulha cada vez que conto.
Nosso papel semente é feito com papel reciclado pós-consumo e sementes embutidas no processo de fabricação. Quando o produto cumpre seu ciclo, em vez de virar lixo, pode ser plantado. E o que nasce não é decoração: são ervas, hortaliças, flores comestíveis. Alimentos, em muitos casos.
Isso não foi uma estratégia de marketing para alinhar o produto ao ODS 2. Foi uma convicção sobre o que significa fechar um ciclo de verdade. Um papel que termina na terra e produz comida é, na essência, uma resposta pequena e concreta à lógica que o ODS 2 combate: a ideia de que produção e descarte são etapas separadas, sem conexão e sem consequência.
Ao longo dos anos, vimos esse produto ser usado em campanhas de conscientização sobre alimentação saudável, em eventos de agricultura urbana, em ações de escolas que plantam com as crianças o que recebem como convite ou brinde. Cada semente que germina é, literalmente, segurança alimentar em escala micro. E escala micro, multiplicada por milhares de pessoas, deixa de ser micro.
O que você pode começar hoje na sua empresa
O ODS 2 pode parecer distante de quem não está no agronegócio. Mas a cadeia alimentar passa por dentro de quase todo negócio, de um jeito ou de outro.
O primeiro movimento é revisar de onde vêm os alimentos que sua empresa consome. Refeitório, copa, eventos corporativos: tudo isso tem uma cadeia de fornecimento. Priorizar fornecedores locais, de agricultura familiar ou de produção orgânica não é só uma escolha ética, é uma forma de fortalecer cadeias mais resilientes e menos dependentes de grandes distribuidores.
O segundo é olhar para o desperdício alimentar dentro da sua operação. O Brasil joga fora cerca de 30% de tudo que produz ao longo da cadeia do campo à mesa. Empresas que mapeiam e reduzem esse desperdício internamente contribuem para o ODS 2 e, quase sempre, reduzem custos no processo.
O terceiro é pensar em como seu produto ou serviço se conecta à segurança alimentar da comunidade ao redor. Não precisa ser direto. Pode ser por meio de parcerias com hortas comunitárias, apoio a programas de alimentação escolar, ou simplesmente garantindo que sua cadeia de compras inclua pequenos produtores locais que, sem acesso a grandes compradores, ficam fora do mercado formal.
A pergunta que fica
2030 está chegando. E a fome, que deveria ser a meta mais urgente e mais solucionável dos 17 objetivos, ainda resiste. Não por falta de alimento no mundo, mas por falta de intenção distribuída em cada elo da cadeia que transforma terra em prato.
A sua empresa está em algum desses elos. A pergunta é: o que está fazendo com esse lugar?
Na próxima coluna da série, seguimos para os ODS que tratam de saúde, educação e energia: o tripé que sustenta qualquer ideia de desenvolvimento que queira durar.