Uma empresa pode investir em tecnologia, modernizar seus processos, conquistar certificações e estabelecer metas ambiciosas de sustentabilidade.
Mas até onde ela consegue avançar se as pessoas que fazem parte dessa transformação não tiverem oportunidades de aprender e se desenvolver?
Essa é uma reflexão que considero essencial quando falamos sobre o ODS 4 da Agenda 2030, que trata da educação de qualidade.
É comum associarmos esse objetivo exclusivamente às escolas, universidades e instituições de ensino. Mas sua proposta vai além: assegurar uma educação inclusiva, equitativa e de qualidade, promovendo oportunidades de aprendizagem ao longo de toda a vida.
E é justamente nessa última expressão — ao longo de toda a vida — que encontro uma conexão importante com o mundo dos negócios.
A educação não termina quando recebemos um diploma. E a responsabilidade pelo desenvolvimento humano não deveria terminar quando uma empresa contrata alguém.
O Brasil que ainda precisa aprender
Os números mostram avanços, mas também revelam a dimensão do desafio. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, apenas 57,4% da população com 25 anos ou mais havia concluído, no mínimo, a educação básica obrigatória em 2025.
Quando observamos esses indicadores pela perspectiva empresarial, percebemos que as desigualdades educacionais não ficam do lado de fora dos portões das organizações. Elas atravessam processos seletivos, oportunidades de crescimento, relações de trabalho e possibilidades de geração de renda.
Não podemos exigir profissionais cada vez mais preparados sem refletir sobre as oportunidades que oferecemos para que eles se preparem.
Capacitar não é apenas ensinar uma tarefa
Ao longo da minha trajetória empreendedora, aprendi que desenvolver pessoas exige algo que nem sempre aparece nos indicadores de produtividade: disposição para compartilhar conhecimento e investir no potencial humano.
Existe uma diferença entre ensinar alguém a executar uma atividade e criar condições para que essa pessoa compreenda o processo, desenvolva autonomia e reconheça suas próprias capacidades.
Na indústria, por exemplo, a aprendizagem acontece também no cotidiano: quando uma pessoa mais experiente orienta outra, quando a equipe participa da solução de um problema ou quando um trabalhador tem espaço para propor melhorias.
Na Papel Semente, temos um exemplo concreto dessa transformação. João Batista começou sua trajetória conosco no chão de fábrica. Ao longo dos anos, participou de diversas capacitações custeadas pela empresa, ampliou seus conhecimentos e assumiu novas responsabilidades. Hoje, é nosso coordenador de produção.
Sua trajetória representa muito mais do que uma promoção profissional. Mostra o que pode acontecer quando uma organização reconhece o potencial das pessoas e decide investir em seu desenvolvimento.
Educação também é uma questão de governança
Quando falamos de ESG, a educação costuma aparecer associada ao pilar social. Mas acredito que ela também precisa ser compreendida como uma questão de governança.
Quem decide quais pessoas terão acesso à capacitação? Quais competências serão desenvolvidas? Existem oportunidades reais de crescimento para profissionais de diferentes níveis hierárquicos?
Essas escolhas dizem muito sobre a cultura e as prioridades de uma organização.
Empresas que tratam o desenvolvimento humano apenas como despesa podem deixar de perceber sua relação com a inovação, a qualidade, a capacidade de adaptação e a continuidade dos negócios.
Em um cenário marcado pela inteligência artificial, pela transformação digital e pela transição para uma economia de baixo carbono, aprender continuamente deixa de ser um diferencial reservado a alguns profissionais.
Torna-se uma necessidade coletiva. Mas há um cuidado fundamental: não basta exigir atualização constante dos trabalhadores sem oferecer tempo, condições e acesso às oportunidades de aprendizagem. A responsabilidade pelo desenvolvimento não pode ser transferida integralmente para o indivíduo.
O que as empresas podem fazer?
Nem toda iniciativa precisa começar com grandes investimentos ou programas sofisticados.
Pequenas e médias empresas podem incorporar o ODS 4 à sua estratégia ao identificar necessidades de aprendizagem, incentivar a troca de conhecimentos entre profissionais e estabelecer parcerias com instituições de ensino e organizações de formação profissional.
Também podem olhar para além de suas equipes, apoiando oportunidades de qualificação nas comunidades onde atuam.
O ponto central é compreender que a educação não deve ser tratada apenas como uma ação pontual de responsabilidade social, mas como parte de uma visão de desenvolvimento sustentável.
E isso exige continuidade, acompanhamento e compromisso.
Afinal, de pouco adianta oferecer um treinamento se o conhecimento adquirido não encontra espaço para ser aplicado.
O conhecimento só transforma quando gera oportunidades
Gosto de pensar que sustentabilidade é, acima de tudo, uma escolha sobre o futuro que queremos construir. E não existe futuro sustentável sem pessoas capazes de participar de sua construção.
O ODS 4 nos convida a olhar para a educação não apenas como um direito fundamental, mas também como uma condição para enfrentar desigualdades, ampliar oportunidades e preparar a sociedade para transformações que já estão acontecendo.
No universo empresarial, essa reflexão deveria estar presente nas decisões de liderança, nos investimentos e na maneira como valorizamos as pessoas.
Sua empresa pode crescer acumulando conhecimento? Até pode! Mas é quando esse conhecimento circula, desenvolve pessoas e abre oportunidades que o crescimento também pode se transformar em desenvolvimento.
E fica outra pergunta: na sua organização, o conhecimento é tratado como um privilégio de poucos ou como uma oportunidade de crescimento para todos?