Ter um emprego é importante. Mas, em um país onde milhões de trabalhadores ainda vivem abaixo da linha de pobreza, a pergunta empresarial precisa ir além: esse trabalho está gerando apenas renda ou está criando condições para autonomia?
O debate sobre erradicação da pobreza costuma parar na comparação mais óbvia: quantas pessoas estão pobres e quantas deixaram de estar.
É um indicador importante, mas incompleto.
Porque existe uma pergunta que interessa diretamente ao mundo empresarial:
entre quem trabalha, quantos ainda não conseguem viver com dignidade da própria renda?
O Brasil avançou. Mas o trabalho ainda não garante a saída da pobreza
Os números mais recentes do IBGE mostram um avanço real.
Entre 2023 e 2024, 8,6 milhões de pessoas saíram da pobreza no Brasil. A proporção da população nessa condição caiu de 27,3% para 23,1%, o terceiro ano consecutivo de queda e o menor nível da série histórica iniciada em 2012.
A extrema pobreza também recuou, de 4,4% para 3,5%, o que representa 1,9 milhão de pessoas a menos nessa condição.
Os programas sociais tiveram papel relevante nesse resultado. Segundo uma simulação do IBGE, sem os benefícios de programas sociais, a proporção de pessoas em extrema pobreza teria chegado a 10% da população, enquanto a pobreza alcançaria 28,7%.
São avanços importantes e precisam ser reconhecidos.
Mas há um dado que interessa especialmente às empresas e que costuma passar despercebido em aguns desses balanços:
ter um trabalho não significa necessariamente estar fora da pobreza.
Em 2024, 11,9% das pessoas ocupadas estavam em situação de pobreza, o equivalente a cerca de 12 milhões de trabalhadores.
A situação varia muito conforme o tipo de vínculo.
A pobreza atingia 20,4% dos trabalhadores sem carteira assinada e 16,0% dos trabalhadores por conta própria, enquanto entre os trabalhadores com carteira assinada a proporção era de 6,7%.
Também havia diferenças expressivas entre setores. A pobreza alcançava 29,3% dos trabalhadores da agropecuária e 22,9% dos trabalhadores dos serviços domésticos, enquanto era de 4,6% entre trabalhadores da administração pública, saúde e serviços sociais.
E as desigualdades também têm cor e gênero.
Em 2024, 25,8% das pessoas pretas e 29,8% das pessoas pardas estavam em situação de pobreza, contra 15,1% das pessoas brancas. A pobreza atingia também proporcionalmente mais mulheres: 24,0%, contra 22,2% entre os homens.
Esses dados mudam a pergunta que uma empresa precisa fazer.
Não basta gerar empregos.
É preciso perguntar se os empregos gerados oferecem renda, estabilidade, proteção e condições que contribuam efetivamente para que as pessoas possam sair da pobreza e permanecer fora dela.
O que isso significa para as empresas
O mercado de trabalho brasileiro vive um momento de avanços importantes.
A taxa de desemprego está em níveis historicamente baixos e a renda do trabalho vem crescendo. Mas existe uma diferença fundamental entre ter trabalho e ter um trabalho capaz de produzir segurança econômica.
A informalidade continua representando uma parcela expressiva do mercado de trabalho brasileiro. No trimestre encerrado em maio de 2026, por exemplo, a taxa de informalidade foi de 37,3%, o equivalente a 38,3 milhões de trabalhadores informais.
Para uma empresa, portanto, discutir a ODS 1 significa olhar para muito mais do que o número de pessoas contratadas.
Significa olhar para salários, formalização, estabilidade, benefícios, desenvolvimento profissional, possibilidades de crescimento e também para as condições existentes ao longo da cadeia de fornecedores.
Uma vaga pode gerar renda.
Mas um trabalho digno pode gerar autonomia.
E essa diferença é fundamental quando falamos em erradicação da pobreza.
A decisão sobre como uma empresa contrata, remunera e desenvolve pessoas não é apenas uma decisão de Recursos Humanos.
É uma decisão sobre o impacto social que aquele negócio produz.
O que 17 anos de Papel Semente me ensinaram sobre isso
Na Papel Semente, a erradicação da pobreza nunca foi um capítulo separado da nossa estratégia de negócio.
Ela está na origem do nosso modelo.
Contratamos localmente, no entorno da nossa unidade em São Gonçalo, e desenvolvemos também um programa de trabalho domiciliar que permite que mulheres da comunidade gerem renda sem abrir mão do cuidado com os filhos, sob a coordenação de uma liderança da própria comunidade.
Esse modelo nasceu de uma constatação simples:
em muitos territórios, a barreira para o trabalho não é falta de vontade ou de habilidade. É a falta de arranjos que respeitem a realidade de vida das pessoas.
Uma mãe que não tem com quem deixar os filhos pode não estar fora do mercado de trabalho por escolha. Pode estar fora porque o modelo tradicional de trabalho não foi desenhado para contemplar sua realidade.
Isso nos ensinou que gerar renda não é simplesmente criar uma vaga.
É criar uma oportunidade que faça sentido dentro da vida real.
Por isso, quando pensamos em geração de renda, a pergunta não é apenas:
Quantas pessoas empregamos?
É também:
Essa renda é suficiente? É estável? É acompanhada de condições que permitam a essa pessoa construir autonomia e permanecer fora da pobreza?
Por onde começar
A ODS 1 não exige que uma empresa resolva sozinha um problema estrutural do país.
Exige que ela olhe com honestidade para o próprio impacto.
1. Olhe para os salários
Não apenas para o cumprimento do piso legal, mas para a capacidade da remuneração de contribuir para uma vida digna. E esse olhar precisa alcançar também os trabalhadores que estão na base da cadeia de fornecedores.
2. Identifique barreiras invisíveis de acesso ao trabalho
Falta de creche, transporte, horários incompatíveis, ausência de flexibilidade ou exigências que não consideram a realidade de determinados territórios podem impedir que pessoas qualificadas sequer consigam acessar uma oportunidade.
3. Priorize inclusão econômica
Observe quem está sendo contratado, quem consegue crescer dentro da organização e quem permanece concentrado nas funções de menor remuneração.
Mulheres e pessoas pretas e pardas estão entre os grupos que enfrentam maiores níveis de pobreza. Inclusão econômica, portanto, não deve ser apenas uma pauta de diversidade: pode ser também uma estratégia de redução de vulnerabilidades.
4. Olhe para a cadeia de valor
Uma empresa pode ter bons indicadores sociais internamente e, ao mesmo tempo, manter uma cadeia baseada em relações de trabalho extremamente vulneráveis.
O impacto social do negócio não termina na porta da fábrica ou do escritório.
5. Transforme geração de renda em desenvolvimento
O emprego pode ser o primeiro passo.
Capacitação, autonomia, possibilidade de crescimento e acesso a novas oportunidades ajudam a transformar renda em trajetória de desenvolvimento.
Para refletir
Ter empregados não é o mesmo que ter empregados fora da pobreza.
E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes que uma empresa possa fazer sobre a ODS 1:
O trabalho que estamos oferecendo está apenas gerando renda ou está criando condições reais para que as pessoas construam autonomia, dignidade e um futuro mais seguro?
Porque erradicar a pobreza não é apenas fazer com que alguém consiga sobreviver.
É criar condições para que essa pessoa possa deixar de viver permanentemente no limite.