Economia SP - O orçamento de tecnologia para 2027 não deveria começar pelo software

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O orçamento de tecnologia para 2027 não deveria começar pelo software

Foto: divulgação
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À medida que as empresas começam a planejar seus orçamentos para 2027, uma pergunta costuma ganhar espaço nas reuniões de diretoria: quais ferramentas precisamos contratar para o próximo ano? A questão parece razoável, mas talvez seja justamente o ponto de partida equivocado. Antes de decidir quais softwares comprar, renovar ou substituir, as organizações deveriam entender quais problemas precisam resolver, quais processos precisam melhorar e quais capacidades tecnológicas ainda não possuem.

O mercado oferece uma quantidade crescente de soluções para praticamente todas as necessidades corporativas. Há plataformas de gestão, ferramentas de análise de dados, sistemas de automação, aplicações de inteligência artificial e softwares especializados em atividades cada vez mais específicas. Diante de tantas possibilidades, contratar uma nova tecnologia pode parecer uma resposta imediata aos desafios do negócio. O problema é que a facilidade de comprar uma ferramenta não significa que a empresa esteja preparada para extrair valor dela.

Os números ajudam a dimensionar essa pressão por investimento. Segundo a Gartner, os gastos mundiais com tecnologia da informação devem alcançar US$6,37 trilhões até o fim de 2026, uma alta de 14,2% em relação ao ano anterior. A expansão reflete, entre outros fatores, os investimentos em infraestrutura para inteligência artificial, serviços em nuvem e software. O crescimento do mercado, porém, não significa que todas as empresas precisam aumentar seus gastos na mesma proporção. Significa que as possibilidades de investimento estão se multiplicando e que escolher bem se tornou ainda mais importante.

O orçamento de tecnologia não pode ser uma lista de ferramentas desejadas por diferentes departamentos, nem uma coleção de renovações contratuais herdadas de anos anteriores. Ele precisa ser uma tradução financeira das prioridades do negócio. Se a empresa pretende reduzir o tempo de atendimento ao cliente, por exemplo, o primeiro passo não deveria ser pesquisar plataformas de automação, mas identificar onde estão os gargalos, quais tarefas consomem mais tempo e por que os processos atuais não entregam o resultado esperado.

Essa análise pode revelar que a organização realmente precisa de um novo software. Mas também pode mostrar que o problema está na falta de integração entre sistemas existentes, na duplicidade de atividades, na ausência de critérios para tratar informações ou em processos que nunca foram revistos. Em situações assim, adicionar uma ferramenta pode apenas digitalizar uma ineficiência que já existia.

O mesmo raciocínio vale para a inteligência artificial, que tende a ocupar uma parcela cada vez maior das discussões orçamentárias. A pressão para incorporar recursos inteligentes às operações pode levar empresas a contratar soluções antes de definir os usos prioritários, os riscos envolvidos e os indicadores que permitirão avaliar os resultados. Sem essas respostas, o investimento corre o risco de produzir demonstrações impressionantes, mas pouco impacto sobre os objetivos corporativos.

O desafio não está em desacelerar a inovação, e sim em evitar que a novidade se transforme em critério de compra. Uma tecnologia deve ser avaliada pela capacidade de resolver um problema relevante, reduzir custos, ampliar receitas, melhorar a experiência do cliente ou fortalecer a segurança da operação. Quando a decisão começa pelo nome da ferramenta, essas perguntas frequentemente aparecem tarde demais.

Outro ponto que merece atenção é o custo total de uma contratação. O preço apresentado pelo fornecedor raramente representa sozinho o impacto financeiro da tecnologia. Implementação, integração, migração de dados, treinamento, manutenção, suporte, segurança e eventuais ajustes nos processos também precisam entrar na conta. Uma plataforma aparentemente econômica pode exigir uma estrutura de implantação cara; uma solução mais robusta pode justificar o investimento se reduzir retrabalho e consolidar operações antes distribuídas por diferentes sistemas.

Há ainda um custo menos evidente: o da complexidade acumulada. Cada novo software pode criar mais uma base de informações, ou seja, mais um contrato, mais uma interface e mais uma dependência operacional. Quando as ferramentas não se comunicam adequadamente, os profissionais passam a transferir dados manualmente, conferir informações em diferentes ambientes e contornar limitações que deveriam ser resolvidas pela própria arquitetura tecnológica. A empresa paga pela ferramenta e, depois, continua pagando pelo esforço necessário para fazê-la funcionar dentro de sua realidade.

Por isso, o planejamento para 2027 deveria começar por um diagnóstico do que a organização já possui. Quais sistemas são efetivamente utilizados? Quais entregam resultados mensuráveis? Onde há funcionalidades contratadas, mas pouco aproveitadas? Quais soluções se sobrepõem? Quais integrações são críticas? E quais contratos precisam ser revistos porque deixaram de fazer sentido para a estratégia atual?

Responder a essas perguntas permite separar investimentos necessários de despesas mantidas por inércia. Também abre espaço para negociar licenças, eliminar redundâncias, aprimorar integrações e direcionar recursos a projetos com maior potencial de retorno. Em muitos casos, a primeira economia relevante não virá da compra de um software mais barato, mas da decisão de não contratar aquilo de que a empresa não precisa.

Isso exige uma mudança na relação entre tecnologia e áreas de negócio. O orçamento não deveria ser construído exclusivamente pela equipe de tecnologia, nem resultar de uma disputa entre departamentos por recursos. As áreas operacionais conhecem suas dificuldades, a liderança define prioridades e a equipe técnica avalia viabilidade, arquitetura, segurança e sustentabilidade. A decisão de investimento precisa combinar essas perspectivas, com responsabilidades claras e critérios comuns de avaliação.

Também é fundamental estabelecer, antes da contratação, como o sucesso será medido. Reduzir o tempo de execução de uma tarefa, diminuir a incidência de erros, aumentar a produtividade ou melhorar a conversão comercial são objetivos verificáveis. Já expressões como modernização, transformação digital e inovação, quando não acompanhadas de metas concretas, podem justificar investimentos sem permitir uma avaliação consistente de seus resultados.

O planejamento financeiro de tecnologia para 2027 deveria, portanto, seguir uma lógica diferente: primeiro, compreender a estratégia; depois, identificar os problemas prioritários; em seguida, avaliar processos, dados e sistemas existentes; e somente então definir quais ferramentas, serviços e infraestruturas devem receber recursos. Essa sequência não elimina a necessidade de experimentar novas soluções. Ao contrário, permite que a experimentação aconteça com objetivos definidos, limites de investimento e critérios para decidir se uma iniciativa merece ser ampliada.

Em um mercado no qual a oferta de tecnologia cresce rapidamente, comprar deixou de ser a parte mais difícil. O verdadeiro desafio é distinguir o que é possível contratar daquilo que realmente vale a pena incorporar à operação. Empresas que não fizerem essa distinção poderão terminar 2027 com mais licenças, mais fornecedores e mais despesas, sem necessariamente se tornarem mais eficientes.

Finalizo destacando que o melhor orçamento de tecnologia não é aquele que reserva mais dinheiro para softwares, nem o que corta indiscriminadamente os investimentos. É aquele que consegue explicar por que cada recurso será aplicado, qual resultado se espera alcançar e como esse resultado será comprovado. Antes de perguntar qual ferramenta cabe no orçamento, as empresas precisam responder a uma questão mais importante: qual transformação de negócio justifica esse gasto?

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Formado em Administração de Empresas pela ESPM, com pós em Branding e MBA em Venture Capital & Private Equity pela FGV/SP, é CEO da Sinergis e co-fundador da ESPM Angels.

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