Economia SP - ODS 8 na prática: crescimento econômico que não deixa ninguém para trás

Pesquisar

ODS 8 na prática: crescimento econômico que não deixa ninguém para trás

Nas últimas semanas, tenho explorado aqui na coluna como as ODS da ONU deixaram de ser agenda de governo para se tornar linguagem real de gestão. Falamos da ODS 12 e de como a economia circular redefine o conceito de descarte. Hoje quero avançar para uma meta que considero igualmente urgente e ainda mais invisível no debate empresarial: a ODS 8, Trabalho Decente e Crescimento Econômico.

Quando essa ODS aparece em apresentações corporativas, costuma vir embalada em números macroeconômicos: taxa de emprego, PIB, formalização do mercado de trabalho. Importante, sem dúvida. Mas o que me interessa, e o que acredito que interessa a quem está na gestão do dia a dia, é a pergunta que vem antes disso: o crescimento da sua empresa está gerando trabalho decente ou apenas gerando trabalho? Porque as duas coisas não são a mesma coisa.

O que “trabalho decente” significa na prática

A OIT define trabalho decente como aquele que garante renda justa, segurança no ambiente de trabalho, proteção social e perspectiva de desenvolvimento. Simples de enunciar. Difícil de honrar quando a pressão por resultado bate à porta todo mês.

O que vejo com frequência nas minhas mentorias é que muitas empresas crescem, ampliam faturamento, contratam mais pessoas, expandem operação, sem necessariamente melhorar a qualidade do trabalho que oferecem. A rotatividade alta, o engajamento baixo e a dificuldade de reter talentos são sintomas desse desalinhamento. E todos eles têm custo financeiro real, embora raramente apareçam assim no balanço.

A ODS 8 convida a olhar para isso com honestidade. Não como filantropia: mas como estratégia.

O que 17 anos me ensinaram sobre isso

Na Papel Semente, a decisão de integrar cooperativas de catadores à nossa cadeia produtiva não nasceu de uma diretriz de responsabilidade social. Nasceu da convicção de que uma cadeia que gera dignidade é uma cadeia mais forte e mais coerente com o que acreditamos.

Ao longo do tempo, percebemos que trabalhar com pessoas que têm propósito na atividade que exercem muda a qualidade do que é produzido. O engajamento não precisa ser construído com campanhas internas: ele já está lá, porque o trabalho faz sentido para quem o realiza. Isso tem impacto direto na qualidade, na consistência e na reputação do produto final.

O mercado começa a enxergar isso também. Grandes compradores e investidores institucionais passaram a auditar não apenas o produto, mas as condições em que ele é feito. A rastreabilidade social, quem produziu, em que condições, com que remuneração, está se tornando critério de negociação, não apenas de marketing.

Por onde começar na sua empresa

Para o gestor que quer aproximar sua operação da ODS 8, algumas perguntas práticas ajudam a mapear onde estão as lacunas.

A primeira: sua empresa conhece de verdade as condições de trabalho dos fornecedores diretos? Não o que está no contrato, o que acontece na prática. A cadeia de Escopo 3 carrega riscos sociais que podem comprometer a reputação de uma marca inteira.

A segunda: sua política de contratação favorece diversidade e inclusão de grupos historicamente afastados do mercado formal? Mulheres chefes de família, pessoas com deficiência, trabalhadores de comunidades periféricas. Incluí-los não é cota. É acesso a talentos que o mercado convencional ainda não sabe enxergar.

A terceira: os planos de desenvolvimento e crescimento dentro da empresa chegam a quem está no chão da operação, ou ficam restritos às lideranças? Crescimento que não circula internamente tende a não durar externamente.

A pergunta que fica

O debate sobre crescimento econômico no Brasil ainda é, em grande parte, um debate sobre quantidade. Quantos empregos foram gerados, quantos postos foram abertos. A ODS 8 nos convida a acrescentar a pergunta de qualidade: que tipo de trabalho estamos gerando e para quem?

Empresas que respondem bem a essa pergunta não estão apenas cumprindo uma meta da ONU. Estão construindo uma cadeia mais resiliente, uma cultura mais sólida e uma reputação que resiste a qualquer auditoria.

A provocação que deixo: se você mapeasse hoje as condições reais de trabalho em toda a sua cadeia, da sua equipe interna aos seus fornecedores, o que encontraria? E o que faria diferente?

Compartilhe

Fundadora e CEO da Papel Semente, palestrante e mentora de lideranças que buscam transformar impacto em estratégia de negócio.

Leia também